
Intensificam-se os apoios para que o candidato vencedor das recentes eleições de 18 de janeiro suceda a Marcelo Rebelo de Sousa na Presidência da República, pelo que Seguro poderá tomar posse como Chefe de Estado no dia 9 de março no Salão Nobre do Palácio de Belém. Alguns dos candidatos derrotados, casos de Luís Marques Mendes, apoiado pelo governo de Luís Montenegro, e de João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, não endossam os votos a nenhum dos dois concorrentes, mas diversas figuras de forças políticas à direita já se manifestaram positivamente a favor de Seguro. Ventura parece não estar muito preocupado com o que se vai passando nos bastidores, pois o próprio só avançou para estas eleições porque Passos Coelho entendeu não ir a votos. Resta agora saber se o antigo primeiro-ministro, que ainda goza de enorme popularidade, surgirá na praça pública para apoiar um dos dois concorrentes, ainda que o próprio tenha afirmado que não fará quaisquer comentários a esse propósito. Ventura sempre manifestou interesse em governar o país desde o Palácio de São Bento, dada a maioria de direita existente em Portugal – o CHEGA, de extrema-direita, está em alta – mas para tal terá de aguardar pelas próximas eleições legislativas, que apenas ocorrerão em 2029.
Mal se soube o resultado eleitoral das presidenciais, Catarina Martins (Bloco de Esquerda), António Filipe (Partido Comunista) e Jorge Pinto (LIVRE) não perderam grande tempo a assumir a preferência por Seguro na segunda volta eleitoral de 8 de fevereiro. Os representantes dos partidos mais à esquerda não toleram que a extrema-direita ganhe ainda mais terreno, mas, todos juntos, somam 4,8% das intenções de voto, uma percentagem muito modesta para que o apoio a Seguro seja significativo. Aliás, a chamada esquerda mais radical tem vindo a perder muito terreno por culpa própria, dadas as suas posições políticas, nomeadamente em termos internacionais, a não merecerem grande acolhimento. O péssimo resultado das últimas legislativas constituíram mais um rude golpe para aqueles que se consideram os maiores defensores do povo, complicando-se um cenário já de si frustrante. Os números dizem categoricamente que perderam mais terreno para o pouco que já tinham, agora acentuados com o mau desempenho nas eleições presidenciais. Outrora pujantes e influentes na vida política portuguesa – Álvaro Cunhal ou Miguel Portas, já falecidos, foram figuras de grande destaque no panorama da política portuguesa -, nos dias de hoje defendem temas fraturantes da sociedade, casos, por exemplo, da existência de uma sociedade sem classes ou das questões que se prendem com a igualdade de género. Contudo, muitas das reivindicações fazem todo o sentido, casos das lutas que travam nas áreas da Saúde, da Habitação e da Educação, para lá da defesa intransigente da melhoria da qualidade de vida dos portugueses.

Um dos candidatos de quem se esperava mais, tratando-se de uma aposta não partidária e, como tal, previsivelmente mais aglutinadora por não estar agarrada a ideologias, tinha como mentor Henrique Gouveia e Melo. O antigo Chefe do Estado-Maior da Armada, que assumiu um papel de destaque como coordenador da Task Force durante o combate à pandemia de COVID-19, ficou-se pela 4ª posição com 695.091 votos. Por enquanto não é conhecida a sua intenção de voto, tendo assumido que o faria mais tarde. Contudo, é de prever que a escolha venha a recair em Seguro, pois foi bem notória durante a campanha eleitoral a antipatia que nutre por André Ventura, com trocas de palavras bem duras.
Houve até um momento caricato que deixou Gouveia e Melo furioso, numa dada altura em que André Ventura surgiu na campanha vestido com um camuflado militar que lhe tinha sido oferecido por antigos combatentes. “Isso deixa-me mesmo muito mal disposto, porque o doutor André Aventura nunca foi sequer ao serviço militar obrigatório”, declarou na ocasião o ex-almirante, considerando um “desrespeito” tal gesto. “Deve ter cuidado com os símbolos que usa. Os uniformes são para quem usou uniforme e serviu a pátria. Como militar, não gostei. Digo claramente que há coisas que têm limites. Isso para mim é um limite”, acentuou o antigo chefe militar.
Divisões geram união em torno de Seguro
Se dois dos principais candidatos no recente ato eleitoral – Cotrim Figueiredo e Marques Mendes – não irão, supostamente, dar indicação de voto, algumas figuras de relevo dos sociais-democratas que estiveram na oposição a Seguro já se manifestaram. Rui Moreira, antigo presidente da Câmara Municipal do Porto, mandatário da campanha de Luís Marques Mendes – o maior dos derrotados por ser apoiado pelo governo – já disse que irá apoiar Seguro. O social-democrata Pedro Soares, que sucedeu a Moreira na presidência da edilidade portuense, também declarou esse apoio. José Eduardo Martins, António Capucho e José Pacheco Pereira, rostos bem conhecidos da área da social-democracia, fizeram exatamente o mesmo. Também Miguel Poiares Maduro, antigo ministro do PSD e membro da comissão política de Marques Mendes, deixou bem claro o seu pensamento.”Eu apoiarei claramente e votarei em António José Seguro. Se André Ventura chegasse a Presidente da República ele ia presidencializar o regime, ele quer ser primeiro-ministro e na medida que o conseguisse iria governar através da Presidência da República”, referiu Maduro.
Na Iniciativa Liberal, o líder parlamentar Mário Amorim Lopes revelou que votará no candidato apoiado pelo PS, invocando a “ameaça ao Estado de direito” que considera estar associada ao CHEGA. Também José Manuel Júdice, mandatário do liberal João Cotrim de Figueiredo nestas presidenciais, anunciou que votará em Seguro, tal como Francisco Rodrigues dos Santos, ex-líder do CDS-PP, partido que faz parte da atual coligação governamental. Por estes dias, certamente que outras personalidades surgirão a pronunciar-se a favor de Seguro, o mesmo não devendo acontecer com Ventura, que terá de fazer um caminho com os trunfos possíveis e tentar capitalizar o seu eleitorado. Mesmo assim, a missão não se afigura nada fácil, pois o CHEGA já conheceu alguns casos, um dos mesmo anedótico, com um dos seus deputados apanhado a roubar malas nos aeroportos. Mais grave foi a situação que se prendeu com um candidato autárquico, detido por suspeitas de pedofilia.
Passos Coelho fora da cena política
Quem continua fora da política é o antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, que governou o país entre 2011 e 2015. Político da área social-democrata, Passos está afastado do cenário político-partidário, apenas surgindo em alguns eventos, onde as suas palavras continuam a ser muito ouvidas e aplaudidas. Amigo de André Ventura, o ex-governante é, reconhecidamente, um aliado das causas defendidas pela direita e até de algumas da extrema-direita, o mesmo não significando que esteja “colado” ao presidente do CHEGA. “Não desejo fazer qualquer comentário ou declaração sobre as eleições presidenciais”, escreveu o ex-líder do PSD e do Governo em resposta a uma pergunta escrita da agência Lusa. Passos Coelho não fez qualquer declaração sobre as eleições presidenciais até às recentes eleições, devendo manter a mesma postura relativamente à segunda volta.

Recorde-se que Passos esteve ligado a um momento conturbado do país numa altura da intervenção da Troika em Portugal (FMI, BCE, Comissão Europeia) entre 2011-2014, como resgate financeiro face à crise da dívida soberana, impondo um programa de austeridade com cortes orçamentais, aumento de impostos (IRS, IVA), redução de salários/pensões, e liberalização do mercado de trabalho, visando o saneamento das contas públicas em troca de 78 mil milhões de euros. Esse pedido de ajuda, solicitado a 7 de abril de 2011, mexeu, e de que maneira, nos bolsos dos portugueses, com alguns a acusarem que Passos terá ido “para além da Troika”. Para outros foi o “salvador” do país numa altura em que o erário público se encontrava seriamente depauperado com consequências nefastas no PIB (Produto Interno Bruto). O Partido Socialista foi dos que mais criticou esta atuação, bem como todos os outros partidos à esquerda, mas a verdade é que o programa terminou oficialmente a 17 de maio de 2014 com uma saída “limpa”, ainda que Portugal tenha permanecido sob vigilância até ao reembolso de 75% dos empréstimos concedidos.
Socialistas Europeus não escondem opção
A presidente do grupo político europeu dos Socialistas e Democratas (S&D), Iratxe García Pérez, pediu que “todos os democratas” votem em António José Seguro na segunda volta das eleições presidenciais, indicando-o como o “candidato pró-europeu” que “representa a liberdade”. Este pedido foi direcionado aos líderes do Partido Popular Europeu (PPE), aguardando que o Partido Social Democrata e o Centro Democrático Social – os dois partidos que compõem o atual governo português -, aceitem a sugestão, tanto mais que estas forças integram o PPE. Do mesmo modo, a Iniciativa Liberal, que teve um resultado relativamente expressivo com Cotrim Figueiredo (902.571 votos), foi alvo dessa mesma chamada de atenção, pois o seu partido inclui a Renew Europe, que pertence à mesma família europeísta. “Não haverá nenhuma dúvida”, referiu ainda Iratxe, reiterando que Seguro é “a única alternativa pró-europeia e democrática”, em contraste com a agenda “trumpista” e da extrema-direita, numa alusão ao presidente norte-americano Donald Trump.
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

