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Seguro vence e vai com Ventura à segunda volta das Eleições Presidenciais 2026

Tal como era previsível em Portugal, António José Seguro, candidato apoiado pelo Partido Socialista, e André Ventura, líder da extrema-direita, vão disputar entre si no próximo dia 8 de fevereiro a sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa

Seguro começou por ‘correr’ sozinho, mas acabou por ter o apoio do Partido Socialista Foto de campanha.jpg

Portugal foi a votos para a eleição do próximo Presidente da República, que terá pela frente um período de cinco anos para mediar a política nacional. Contrariamente ao que se passou em recentes eleições, um dos grandes registros vai para a diminuição da abstenção, que se ficou pelos 47,3%, contra os 54,5% das últimas “presidenciais”, realizadas em 2021, que Marcelo Rebelo de Sousa venceu por maioria. Seguro ganhou esta primeira volta com uma margem a rondar os 7,5% sobre Ventura, pelo que terá de haver um desempate no início do mês de fevereiro, pois para a eleição direta seriam necessários 50% mais um voto. O grande derrotado foi o candidato Luís Marques Mendes, apoiado pela coligação AD – PSD/CDS, e, por consequência, o primeiro-ministro Luís Montenegro, que desde a primeira hora apoiou o antigo líder do seu próprio partido.

O sucessor de Marcelo será o garante da independência nacional e do bom funcionamento das instituições democráticas, na defesa da Constituição, para lá de assumir o cargo de Comandante Supremo das Forças Armadas. Pela primeira vez, em 40 anos de Democracia, o país terá de ir a uma segunda volta, tal como o PortalR3 prognosticou – só em 1986 foi possível assistir-se a um cenário idêntico no confronto entre Mário Soares (PS) e Freitas do Amaral (PSD/CDS) -, com o socialista e grande estadista a levar a melhor sobre o seu opositor. Os tempos atuais são bem diferentes e os políticos manifestamente distintos dos de agora. Se Seguro representa uma facção mais ao centro, tendo-se assumido como candidato apartidário – só mais tarde recebeu o apoio do Partido Socialista -, já Ventura é o rosto do radicalismo do setor mais à direita por via de um pensamento ideológico não muito diferente, para muitos analistas, daquele que se vivia antes do golpe militar de abril de 1974, que derrubou o regime fascista que vigorava em Portugal.

André Ventura estava confiante na vitória, mas terá de aguardar pela segunda volta. (Foto: de campanha)

Ventura é um político antissistema e não mede as palavras para apregoar os seus ideais. “Eu sou um democrata e sou mesmo, por natureza. Mas há uma expressão que se ouve muito que faz sentido. De facto, não era preciso um Salazar, eram precisos três Salazares. Porque o país está tão poder de corrupção, impunidade, bandidagens que eram precisos três Salazares para pôr isto na ordem”, referiu em entrevista o líder CHEGA, o segundo partido mais representativo na Assembleia da República, com 60 deputados, logo a seguir à AD – Coligação PSD/CDS, com 91 representantes eleitos nas últimas eleições legislativas. Este discurso ideológico, manifestamente antissocialista e mesmo fundamentalista, ganhou muito peso entre os portugueses, pois Ventura tem assumido determinadas posições contra a imigração e os indivíduos de etnia cigana, acusando-os de serem subsídio-dependentes por não quererem trabalhar e, como tal, viverem à custa do Estado.

Para lá destas acusações, Ventura afirma-se como o verdadeiro garante de uma renovação profunda de um sistema político em que a corrupção, segundo a sua opinião, não tem mãos a medir. É um facto que Portugal vive tempos muito agitados em função dos vários casos entregues à Justiça, demasiadamente lenta a atuar, e que têm a ver com a corrupção, compadrio e tráfico de influências. O líder da extrema-direita, de raízes católicas – são frequentes as idas ao Santuário de Fátima – não tem dado tréguas a variados temas que considera serem o “cancro” de uma sociedade, um deles com a questão que se prende com a pedofilia, nomeadamente na Igreja Católica, defendendo a castração química, bem como a introdução da prisão perpétua no Código Penal.

Seguro afirma-se como um vanguardista

António José Seguro venceu a primeira volta com grande apoio dos jovens. (Foto: divulgação/campanha)

António José Seguro, antigo líder do Partido Socialista é defensor de uma “nova cultura política” para Portugal, propondo metas e objetivos que vão de encontro aos desígnios fundamentais de um país que se pretende na “vanguarda da Europa”. Não é fácil nem nunca será fácil, pois o burgo lusitano vive mergulhado numa crise acentuada, mormente no que se prende com a pobreza, que atinge cerca de 1,8 milhões de portugueses. Aliás, nem cabe ao Presidente da República resolver um problema de tamanha dimensão, que os sucessivos governos têm descurado. Tanto o Partido Socialista como o Partido Social Democrata, os principais responsáveis pela política dos últimos 50 anos em Portugal, têm, cada um à sua maneira, deixado essa triste herança ao sabor do vento. Significa isto que outros valores se levantam, quase sempre tendo como pano de fundo as contas públicas que se pretendem saudáveis para que os verdadeiros donos da Europa não nos virem as costas. Pois, mas é à custa dos impostos dos portugueses que o país lá vai gerindo os momentos mais complicados de um futuro incerto. Não para todos, já que as assimetrias mostram um território onde a excentricidade (económica) de muitos sobrava para, pelo menos, alimentar muitas bocas.

Neste duelo do próximo dia 8 de fevereiro, António José Seguro – o mais sério candidato à vitória – terá de ser incisivo e pragmático. Não basta dizer que vai fazer melhor do que Marcelo, pois essa será a sua missão. Como diz a canção, “para melhor está bem, para pior já basta assim”. As promessas irão suceder-se e espera-se que não sejam levadas pelo vento, sob pena de tudo ficar na mesma. O Presidente da República, mesmo com poderes limitados, tem a chamada “bomba atómica” na mão, podendo dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas. Esse é um cenário que Seguro, caso saia vencedor, não colocará em cima da mesa, pois o que Portugal menos precisa é de novo ato eleitoral. O primeiro-ministro Luís Montenegro lidera o atual governo desde abril de 2024, após a vitória da Aliança Democrática (AD), e só se pode esperar que trabalhe em prol da melhoria das condições de vida dos portugueses. Não está fácil, a contestação tem sido muita – a área da Saúde vive num autêntico caos -, mas Seguro é um homem ao centro e por certo que não irá entrar em conflito com o atual executivo, uma previsão que muda radicalmente de figura se Ventura for o eleito.

Esquerda faz figura de corpo presente

Os outros candidatos mais à esquerda pouco ou nada trouxeram a estas eleições. António Filipe (Partido Comunista Português), Catarina Martins (Bloco de Esquerda) e Jorge Pinto (LIVRE), tidos como os embaixadores de uma facção contra-poder mais radical, têm perdido sistematicamente terreno nas várias eleições, quer se trate de legislativas ou do poder local. O fenómeno tem-se acentuado de tal forma que deixa aqueles que mais apregoam a igualdade e fraternidade quase que ausentes da luta política e mesmo social, apenas visível nos momentos em que as centrais sindicais fazem uso do direito à manifestação e à greve. Num âmbito mais alargado, o descrédito tem-se acentuado aos olhos da maioria face às posições ambíguas, ou nem tanto, fruto das diversas crises internacionais. A guerra que a Rússia desencadeou na Ucrânia e o conflito israelo-palestiniano têm dividido muitos daqueles que, outrora, lutaram por ideais tidos como mais fraternos. Sinais dos tempos em Portugal, mas não só, pois a Europa tem vindo a seguir um rumo mais virado para a direita ou mesmo de extrema-direita.

Marques Mendes, o candidato apoiado pelo governo, foi o grande derrotado. (Foto: divulgação/campanha)

Acentuado o vazio ideológico de esquerda, o país entra uma fase de grandes indefinições, que passarão agora por saber se o socialismo moderado, de parceria com a social-democracia, prevalecerá sobre o radicalismo de direita, obviamente se André Ventura não conseguir assumir o cargo de Presidente da República. Neste último caso, se Ventura sair vencedor, naturalmente que é de prever um terremoto político de dimensão incalculável, tanto mais que quando os extremos se tocam deixa de haver lugar a consensos. Não é de todo crível que Luís Montenegro, apesar dos poderes que o legitimam enquanto primeiro-ministro, se deixe comandar por uma personalidade conflituosa e polémica. Logo se saberá o que vai acontecer na segunda volta das eleições para a Presidência da República que se disputarão no próximo dia 8 de fevereiro. Por enquanto sem prognósticos, mas com as sondagens, por norma infalíveis, aí à porta.

PSD e Iniciativa Liberal sem indicação de voto

Com o decorrer das horas os vários candidatos foram-se manifestando e surgiram os cânticos da vitória, obviamente do lado de António José Seguro e de André Ventura. Ambos ambicionam o principal cargo na Presidência da República, pelo que se vê por vias diferentes, mas os candidatos que ficaram de fora já manifestaram as suas intenções. Tanto João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, como Luís Marques Mendes, apoiado pelo partido do governo, já disseram, tal como o primeiro-ministro Luís Montenegro também afirmou, que os seus eleitores decidirão em quem votar na segunda volta. As percentagens são significativas e não é fácil fazer previsões, mas é bem provável que muitos daqueles que exerceram o seu sentido de voto muito provavelmente o não venham a fazer a 8 de fevereiro. Como tal, pode muito bem acontecer que a abstenção se volte a acentuar. Se para um social-democrata – nem todos, mas para a maioria – votar num socialista é como engolir um sapo vivo, obviamente que para um liberal é muito mais do que isso.

Já o candidato Gouveia e Melo, que conquistou 12,3% do eleitorado, com o antigo almirante a ficar muito aquém do que era expectável, entendeu tratar-se de um “momento precoce” para manifestar uma opinião. Contudo, tratando-se de um democrata que travou uma luta bem acesa com André Ventura, é bem previsível que António José Seguro venha a beneficiar de grande parte dos votos do eleitorado do ex-militar da Marinha. Os partidos mais à esquerda, que tiveram um fracasso monumental e estão cada vez mais fora do mapa eleitoral, pronunciaram-se no sentido de dar o seu apoio ao vencedor destas eleições, naturalmente temendo, como os próprios afirmam, o regresso ao passado.

Resultados totais (11 candidatos)

António José Seguro – 31,1%
André Ventura – 23,5%
Cotrim Figueiredo – 16,0 %
Gouveia e Melo – 12,3%
Marques Mendes – 11,3%
Catarina Martins – 2,1%
António Filipe – 1,6%
Manuel J. Vieira – 1,1%
Jorge Pinto – 0,7%
André Pestana – 0,2%
Humberto Correia – 0,1%

Vaz Mendes
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

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