
Depois de uma primeira volta em que nada ficou decidido quanto ao novo inquilino do Palácio de Belém, a residência oficial do Presidente da República, todos os dados apontam para que seja António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista, a ocupar o mais alto cargo na nação, que durante 10 anos pertenceu a Marcelo Rebelo de Sousa. As várias empresas especializadas em sondagens não variam muito em termos percentuais, com a diferença a acentuar-se dia a dia. Seguro estará perto de conseguir uma folgada maioria a rondar os 70 por cento, deixando André Ventura defraudado quanto às suas expectativas. O líder do partido Chega, conotado com a extrema-direita, tem-se empenhado na luta contra o socialismo e o atual sistema político vigente, mas a maioria da população votante não lhe irá conferir essa vontade. Ventura conta, praticamente, com o seu eleitorado, ao contrário de Seguro que verá transferidos muitos dos votos dos outros 10 candidatos que se apresentaram a sufrágio na primeira volta das eleições.
Desde que se soube que os candidatos mais votados teriam que se defrontar, pois nem Seguro nem Ventura recolheram mais de 50 por cento dos votos na primeira volta para a Presidência da República do passado dia 18 de janeiro, várias empresas especializadas em estudos de mercado e opinião cedo deram como favorito o candidato apoiado pelo Partido Socialista. Com efeito, Seguro foi recolhendo os apoios dos seus opositores, como aconteceu com Luís Marques Mendes, o candidato da área do governo de Luís Montenegro, e Henrique Gouveia e Melo, ex-Comandante Naval. Muitas outras figuras do centro-direita, com raras exceções, optaram por aconselhar o voto em Seguro, considerando-o um homem com perfil indicado para assumir a Presidência da República, assim como a chamada esquerda mais radical. Tanto o Partido Comunista como o Bloco de Esquerda afinam pelo mesmo diapasão, pelo que Ventura terá mesmo de se cingir ao seu eleitorado, manifestamente inferior aos apoios do seu concorrente.
Partido de um homem só chegou aos 60 deputados
André Ventura tem radicalizado o seu discurso ao apontar o dedo a tudo e a todos, mesmo à comunicação social. Eloquente por natureza, o político que um dia disse que Portugal precisava de “três Salazares” – o rosto do fascismo em Portugal antes da Revolução de Abril de 1974 comandada pelos militares – e que faz da imigração descontrolada uma das suas bandeiras, aproveita todos os momentos para dar nas vistas. Sempre rodeado de seguranças, Ventura encontra nos insatisfeitos com o sistema democrático vigente no país os seus grandes aliados. Naturalmente que o descontentamento é muito, tanto mais que áreas como a Saúde e a Habitação têm sido descuradas pelos sucessivos governos, quer da direita como da esquerda, originando um misto de indignação e de revolta. Por isso mesmo, nas últimas eleições legislativas o partido Chega teve cerca de milhão e meio de votantes vindos dos mais diversos quadrantes políticos.

O impacto foi de tal ordem, que o Chega, há poucos anos o partido de um homem só – em 2019 conseguiu apenas eleger um deputado… o próprio Ventura -, transformou-se no segundo maior partido português, logo a seguir à coligação do governo formada pelo Partido Social Democrata (PSD) e pelo Centro Democrático Social (CDS). Com 60 deputados eleitos, tendo ultrapassado o Partido Socialista (PS), o Chega passou a ser a maior força da oposição e Ventura, mais do que ser Presidente da República, aspira a que dentro de quatro anos possa suceder a Luís Montenegro no cargo de primeiro-ministro. Uma tarefa bem árdua, pois não é nada provável que Ventura se mantenha em alta, a crer nas últimas sondagens, que o colocam com um índice de popularidade aquém do que desejaria. Portugal nunca foi um país de extremos e por isso mesmo a aposta em Seguro para suceder a Marcelo na Presidência da República, por inerência o Comandante Supremo das Forças Armadas, será uma opção de bom senso, como defende a maioria dos seus apoiantes.
Temporal pode adiar ida às urnas em vários locais
Uma das grandes questões de momento prende-se com a tempestade que assolou Portugal e que continua a não dar tréguas. Depois das depressões Ingrid, Joseph e Kristin, que trouxeram morte e destruição, o país está a sentir os efeitos da tempestade Leonardo, que transporta consigo muita chuva e vento. A situação no terreno continua extremamente complicada com muitos desalojados devido ao colapso de vários tipos de estruturas provocado pelas cheias e deslizamentos de terras. As previsões climatéricas não vão dar tréguas tão cedo e poderá verificar-se alguma desmobilização, principalmente nas áreas mais afetadas, quer no Centro como no Sul do país. Por isso mesmo a Comissão Nacional de Eleições (CNE) admite adiar por uma semana as eleições nas localidades mais afetadas pelo temporal. “A verificar-se esta situação excecional será a votação nesses locais efetuada no domingo seguinte”, lê-se no comunicado divulgado, apesar de estarem a ser “adotadas todas as medidas necessárias para assegurar a realização da votação na data prevista”, refere a mensagem. Assim, vários municípios já solicitaram a alteração dos locais de voto na expectativa de que o dever cívico possa ser cumprido no dia 8 de fevereiro.

Para se ter uma ideia da gravidade da situação basta dizer que é expectável que esta nova depressão trouxe em 24 horas a chuva equivalente a três dias de inverno. Os sinais já não são de preocupação extrema, mas de momento há cinco distritos sob aviso amarelo devido à chuva e vento fortes: Leiria, Lisboa, Setúbal, Beja e Faro. Também toda a costa está sob aviso laranja por causa da agitação marítima. Fatores de alto risco só por si suficientes para a desmobilização e a consequente falta ao ato eleitoral, que em Portugal nunca foi obrigatório. Por outro lado, a abstenção pode aumentar – teve um acentuado decréscimo na primeira volta se comparada com as eleições legislativas de 2019 -, assim como os votos brancos ou nulos. Neste último caso, as sondagens apontam para um crescimento em função do número de indecisos, pelo que a situação pode beneficiar estrategicamente André Ventura em prejuízo da vantagem de António José Seguro. É o chamado voto de protesto, pois muitos daqueles que apoiaram outras candidaturas na primeira volta não quererão dar o sim a nenhum deles.

“Se for necessário tapem a cara com uma mão e votem com a outra”, foi assim que em 1986 Álvaro Cunhal, o carismático líder do Partido Comunista, aconselhou os seus camaradas a votarem no socialista Mário Soares – vencedor da segunda volta – para impedirem a eleição de Freitas do Amaral, um político ligado à direita. Tudo mudou e nos dias de hoje é impensável um pedido dessa natureza, mas que Seguro agradecia, lá isso não deixa de ser verdade. Ao que tudo indica, obviamente fazendo fé nas sondagens – é raro falharem -, o próximo Presidente da República já estará encontrado e, caso tudo decorra dentro da normalidade, deverá tomar posse no próximo dia 9 de março.
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

