
Depois das depressões Ingrid, Joseph e Kristin, que obrigaram o governo a decretar o Estado de Calamidade em 60 municípios, as previsões para os próximos dias não são nada animadoras. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), a queda de chuva e o vento forte irão manter-se por todo o país, podendo agravar ainda mais a dramática situação causada pela tempestade. Com efeito, principalmente na Zona Centro de Portugal, os rios transbordaram e há fortes constrangimentos provocados pelas inundações. A destruição é bem visível em diversas localidades, muitas delas sem rede elétrica há já alguns dias. As empresas responsáveis pela distribuição de eletricidade têm estado no terreno, mas não é fácil solucionar todos os problemas no território continental, que já afetaram mais de um milhão de pessoas. Quedas de árvores e de estruturas, condicionamento de estradas e serviços de transporte, cortes na distribuição de água são algumas das consequências do forte temporal que tem levado ao desespero largas centenas de habitantes.
Um pouco por todo o lado sucedem-se os episódios complicados e mesmo cruéis devido à forte tempestade que se instalou em Portugal. Como já noticiamos, seis pessoas perderam a vida devido à tragédia, a que infelizmente se acrescentam mais duas vítimas mortais. Um homem que residia em Alcobaça, de 66 anos, assim como outro indivíduo, de 76 anos, residente Batalha, concelhos do distrito de Leiria, morreram devido às quedas sofridas quando tentavam consertar os telhados das suas residências. Este delicado trabalho em contexto de mau tempo é, obviamente, extremamente perigoso e desaconselhável, mas as pessoas entram em desespero na tentativa de salvar os seus bens e os imprevistos acontecem.
De visita aos locais mais afetados, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, lamentou a perda de vidas e apelou às populações para que não corram “riscos excessivos”, pelo que devem entrar em contacto com alguém habilitado a solucionar este tipo de situações. Ao defender o “reforço” das Forças Armadas no terreno, Marcelo considerou “fundamental essa intervenção logística nas inundações”. O chefe de Estado confia nos militares enquanto agentes de Proteção Civil dada a sua “capacidade de mobilização”, tendo recordado os dramáticos incêndios de 2017, em Pedrógão Grande, onde “tiveram um papel importante de apoio logístico”.
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Com efeito, o Exército vai envolver as suas tropas especiais nas operações de apoio nos concelhos mais atingidos pela tempestade, dada a urgência em fazer face às múltiplas ocorrências que têm transformado algumas zonas num cenário mais parecido com uma qualquer guerra. O apoio inclui a distribuição de bens, limpeza de vias e auxílio logístico, embora as dificuldades persistam pela chegada tardia de geradores. Ao que se sabe, as pesadas máquinas ainda não chegaram aos destinos devido a problemas com o seu transporte. Fundamental nestas ações, as Forças Armadas já estão a colaborar no apoio direto aos bombeiros, fortemente empenhadas no restabelecimento da segurança, da mobilidade e das condições essenciais às populações.
Ministro faz vídeo com música de fundo a gerir a crise
O quadro não é nada famoso e, como já é um (mau) hábito – no último verão os incêndios devastaram milhares de hectares de florestas, ao exemplo de anos anteriores – o auxílio às populações tarda em chegar. Reuniões e mais reuniões, uma delas mesmo caricata quando foi divulgado um vídeo por muitos considerado uma autopromoção de Leitão Amaro, ministro da Presidência. O governante surge em mangas de camisa arregaçadas no seu gabinete, juntamente com os assessores, filmado em vários ângulos, ao telefone e a roer as unhas, rodeado de papéis e de walkie-talkies, com música dramática de fundo. O vídeo, com marca de água própria com o nome do ministro e edição profissional, caiu bastante mal e provocou toda uma série de comentários desagradáveis, pois foi considerado como uma habilidade promocional, obviamente nada adequada aos trágicos momentos por que muitos dos portugueses estão a passar. O certo é que o próprio Leitão Amaro entendeu retirar o vídeo das redes sociais, ainda que cópias do mesmo continuem a ser partilhadas – disso não se livra -, pois o timing da sua divulgação foi considerado inadequado. O ministro considerou que a publicação “foi entendida de uma forma que não era pretendida”, pelo que entendeu eliminar o vídeo para “evitar ruído e más interpretações”.
Também a ministra da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral, foi alvo de fortes críticas por não se encontrar no terreno, sendo, por inerência do cargo, responsável pela Proteção Civil. “Há muito trabalho que se faz em contexto de invisibilidade, no gabinete. Temos trabalho de informação, reflexão, planeamento e coordenação”, afirmou a ministra em declarações aos jornalistas. Logo após esta explicação, ao justificar a ausência nos locais mais fustigados pela tempestade, as críticas surgiram de todos os quadrantes. “A senhora ministra da Administração Interna, que é o topo da Proteção Civil, é uma não existência”, declarou o líder parlamentar do Partido Socialista, Eurico Brilhante Dias, na Assembleia da República. “A senhora ministra ainda não veio, uma vez que seja, dar uma palavra de conforto às pessoas, de tranquilidade, e o mais pequeno vislumbre de como é que vão decorrer as coisas daqui para a frente”, lamentou também Mariana Leitão, líder da Iniciativa Liberal.

Já os candidatos à segunda volta das eleições presidenciais, agendadas para o próximo domingo, dia 8 de fevereiro, não deixaram de tecer duras críticas à atuação dos atuais governantes. “Parece que não aprendemos com outras situações que ocorreram no passado recente. A questão dos incêndios. A questão do apagão, a questão da emergência no socorro médico, o que se passou no Elevador da Glória”, disse hoje António José Seguro. Para o candidato presidencial apoiado pelo Partido Socialista (PS), “não se pode permitir que o Estado tenha pés de barro”, porque “as pessoas precisam de confiar nas suas instituições”, sabendo que “o Estado existe para as proteger e para preservar a sua vida e para preservar os seus bens”, referiu o mais que provável sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, a confiar nas sondagens diariamente divulgadas.
Mordaz, bem ao seu estilo, o líder da extrema-direita André Ventura, que disputa com Seguro a Presidência da República, não se ficou pelas meias palavras. “Que se lixem as eleições. Nós temos de nos focar em ajudar. Ajudar é mostrar às pessoas o que está a acontecer e não andarmos a fazer outra coisa qualquer”, referiu durante uma visita a uma localidade do concelho de Leiria, tendo considerado estar na presença de um “cenário apocalíptico”. Por entre críticas ao atual executivo, Ventura também não se livrou de uma quantas palavras de protesto, pois o candidato presidencial foi acusado de “aproveitamento político”, sempre com a comunicação social atrás de si, com o presidente da Câmara de Leiria a afirmar que se tem assistido a “um carrossel de pessoas a vir a Leiria como se um jardim zoológico se tratasse”.
Montenegro promete apoio de dois mil milhões de euros
O primeiro-ministro Luís Montenegro convocou o Conselho de Estado para debater o grave problema com que Portugal foi confrontado, assuntos que se prendem com a reconstrução das estruturas destruídas ou danificadas, assim como dos prejuízos das milhares de famílias afetadas. Sabendo-se que este é um tipo de conversa já vista e revista, aguarda-se que desta feita as promessas sejam rapidamente concretizadas. No essencial, Montenegro anunciou que o governo decidiu conceder apoios à reconstrução de habitação própria, em intervenções até 10 mil euros, mesmo sem seguro e sem a necessidade de documentação. Este procedimento será acompanhado por uma prévia vistoria das câmaras pelas Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR), o mesmo acontecendo nas situações relacionadas com a agricultura e a floresta. Entretanto, o governo decidiu prolongar a situação de calamidade até ao dia 8 de fevereiro, pois está previsto novo agravamento das condições climatéricas.

“Estamos a mobilizar toda a nossa capacidade. Estamos aqui para gerir a emergência com sentido de responsabilidade, mas também com esperança e confiança. Vamos mais uma vez reerguer Portugal. Foi feito tudo o que era possível para colocar as forças em prontidão. A evolução não era antecipável para ninguém, mas não teremos questão em aprofundar alguma questão no futuro”, garantiu o primeiro-ministro.
Papa envia carta de pesar
O Papa Leão XIV endereçou uma mensagem de pesar ao bispo de Leiria-Fátima e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. José Ornelas Carvalho, na sequência das graves consequências pela passagem da depressão Kristin pelo território nacional e que já causou oito vítimas mortais. Na carta, assinada pelo secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, o Santo Padre manifestou “profunda dor pelas vidas perdidas” e associa-se espiritualmente ao sofrimento das famílias enlutadas, sublinhando a dimensão humana causada pela tempestade. Leão XIV suplica a Deus o “bálsamo da solidariedade e a luz da esperança cristã ao conceder-lhes, por intercessão de Nossa Senhora de Fátima, confortante bênção apostólica”.
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É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.


