
A depressão Ingrid chegou em força a Portugal e a situação vai agravar-se severamente nas próximas horas, um fenómeno que deverá permanecer no continente nacional pelo menos até ao próximo domingo. Os distritos do Porto, Braga, Viana do Castelo, Vila Real e Viseu foram colocados sob aviso vermelho – o mais grave – pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), mas esta medida deverá atingir todo o território. A neve, a chuva, a queda de granizo e o vento e o intenso frio que se faz sentir tem provocado inúmeras ocorrências, desde o deslizamento de terras à forte agitação marítima, com o mar a galgar as margens, havendo muitas ruas encerradas ao trânsito. Face a estas condições, as autoridades recomendam, em especial à comunidade piscatória e da náutica de recreio que se encontra no mar, o regresso ao porto de abrigo mais próximo e a adoção de medidas de precaução. É também desaconselhada a prática de passeios junto à orla costeira e nas praias, bem como a prática de atividades em zonas expostas à agitação marítima.
As diversas ocorrências devido à depressão Ingrid têm-se verificado mais no Norte e Centro do país, pelo que os alertas sucedem-se com frequência. A ANEPC está a enviar mensagens via SMS, sempre atualizadas, para todos os habitantes das diversas áreas geográficas, colocando a população em alerta face aos vários riscos que podem correr se não se resguardarem da tempestade. O trânsito também está a ser seriamente afetado devido aos enormes lençóis de água que se formam nas estradas e nas ruas, a que se acrescenta o gelo formado devido à queda de neve nas regiões acima dos 600 metros, ou mesmo dos 400 metros em algumas regiões. O frio e a chuva que se faz sentir em todo o país tem provocado forte queda de neve, com as temperaturas mínimas a rondar os zero graus na zona de Trás-os-Montes, sendo que as máximas não ultrapassam os seis graus. Já na Zona Centro, principalmente na Serra da Estrela, cuja altitude é de 1993 metros, têm-se registado temperaturas negativas, o que não sendo anormal para esta altura da época, provocou um dos maiores nevões de que há memória, pelo menos nos últimos 10 anos. As autoridades têm recomendado que se evitem os tradicionais passeios, por norma agradáveis mesmo em dias frios, devido ao gelo acumulado, pelo que há locais de grande interesse turístico que se encontram encerrados. As viaturas limpa-neves têm estado em ação 24 sobre 24 horas, mas a intensidade da neve é de tal ordem que se torna muito complicado manter as estradas transitáveis.
O incidente mais grave até agora conhecido prendeu-se com o colapso do muro de uma creche na Covilhã, cidade da Zona Centro, já próxima da Serra da Estrela, que destruiu duas viaturas. Felizmente, a derrocada não atingiu pessoas, mas o susto foi grande e houve logo o cuidado de remover as pedras que se soltaram no intuito de minorar eventuais danos. O alerta vermelho obrigou ao fecho das escolas e à suspensão dos transportes públicos, aliás uma medida extensiva às zonas mais afetadas do país, que continuam a tremer de frio. E o pico da “Ingrid” ainda está para vir, pois é previsto que a situação se agrave drasticamente neste sábado. Não é de agora, pois Portugal tem sido sistematicamente afetado por diversas depressões – já são tantos os nomes… -, mas estes fenómenos estão a multiplicar-se um pouco por todo o mundo, a que não são alheias as alterações climatéricas.
Canhão da Nazaré interditado aos surfistas

O famoso canhão da Nazaré, por esta altura do ano uma das maiores atrações turísticas que leva milhares de pessoas a ver as ondas gigantes e os surfistas, que enfrentam águas muito agitadas, foi interditado provisoriamente pela Autoridade Marítima Nacional devido às condições climatéricas adversas, nomeadamente em virtude do forte vento que se faz sentir na Praia Norte. O cenário, verdadeiramente excecional, fruto da combinação entre ondulação de grande período, enorme energia e o efeito de amplificação do canhão da Nazaré poderá levar a que ondas individuais ultrapassem os 30 metros de altura, o equivalente a um prédio com mais de 10 andares. Mesmo para profissionais experimentados, o risco é extremamente elevado e a aventura terá de ficar para dias mais apropriados à prática de um desporto radical de rara beleza.
Ainda assim, são muitas as pessoas que se deslocam ao Sítio, um local bem alto e que permite visualizar em total segurança as ondas gigantes, ainda que todo o cuidado seja pouco. Com efeito, o mau tempo traz consigo muita chuva e rajadas da ordem dos 70 a 80 quilómetros no litoral, que podem colocar em risco a própria vida. Já são muitas as ocorrências verificadas pela tempestade – na ordem das centenas – que veio para ficar até domingo. As previsões não são nada animadoras e todo o cuidado é pouco para evitar eventuais tragédias. A maioria destes incidentes estão relacionados com a queda de árvores e inundações, pelo que a Proteção Civil colocou praticamente todo o território sob rigoroso alerta, um cenário que irá agravar-se durante o fim-de-semana, segundo as informações prestadas pelas autoridades que gerem a evolução da tempestade.
Foz do Douro fechada ao trânsito e a peões
A cidade do Porto está também a ser fortemente atingida pelo mau tempo, mas não há registo de incidentes graves, mesmo junto à orla marítima, pois foram tomadas todas as medidas para evitar males maiores. O Farolim de Felgueiras, localizado na Foz do Douro, é sempre alvo de grande curiosidade para umas boas fotos de circunstância, o que se consegue, ainda que de longe, com relativa facilidade. Por precaução e para salvaguarda da segurança de pessoas e bens, a circulação automóvel e pedonal naquela área foi interrompida. A ondulação é muito forte, com rebentações que podem atingir os 15 metros, prevendo-se para este sábado longos períodos de chuva, por vezes forte, bem como rajadas que podem chegar aos 80 Km/h. A Câmara do Porto, através do Pelouro da Proteção Civil, continuará a acompanhar permanentemente a atualização destas previsões, implementando todas as medidas preventivas e de segurança adequadas e difundindo os avisos julgados necessários.

Também os acessos aos concessionários das praias da frente atlântica estarão igualmente condicionados ou encerrados durante o aviso vermelho. Esta situação, não sendo invulgar, não acontece com muita frequência nas zonas balneares da cidade do Porto, mas a proximidade do mar com as principais artérias da Foz do Douro obriga a cuidados redobrados. Há quem se atreva a uns passeios de bicicleta à chuva ou a umas boas caminhadas, mas o aconselhável mesmo é evitar a proximidade com o oceano, pois o mar é traiçoeiro e as surpresas desagradáveis surgem quando menos se espera. Não é por falta de alertas que os acidentes poderão ocorrer, pois a informação tem chegado de diversas formas, prontamente difundidas pelos meios audiovisuais.
De Norte a Sul do país vão sendo conhecidas algumas ocorrências provocadas pela súbita alteração climática, como a que aconteceu em Santa Maria da Feira, um choque em cadeia envolvendo cinco viaturas que deixou outras tantas pessoas com ferimentos ligeiros. O choque foi provocado pela chuva intensa que se fazia sentir, um quadro que irá agravar-se significativamente nas próximas horas, mas que merecerá a atenção das autoridades policiais, nomeadamente por parte da Guarda Nacional Republicana (GNR), que reforçou o patrulhamento nas estradas. Foi ainda noticiado o registo de mais dois acidentes rodoviários na A32, autoestrada do Douro Litoral, do qual apenas resultaram danos e feridos leves.
Outra das ocorrências que têm surgido, sobretudo nas regiões Norte e Centro, prende-se com as avarias na rede elétrica, com milhares de pessoas a serem afetadas com a falta de distribuição de energia. Os técnicos estão no terreno a acompanhar os trabalhos necessários para o restabelecimento da normalidade para garantirem total segurança às populações, mas os incómodos são muitos. Aliás, com as diversas inundações registadas em vários estabelecimentos junto às praias, como aconteceu em Ovar, cidade do distrito de Aveiro, foi grande a ansiedade dos seus proprietários ao aperceberem-se do contacto da água com o material elétrico. E é neste cenário que se vivem horas algo complicadas e mesmo dramáticas, principalmente nas áreas de maior risco, quer nas que são afetadas pelos intensos nevões, como junto às zonas costeiras.
Fotografias

É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.