Presidenciais 2026 em Portugal são uma autêntica incógnita

Sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa tanto pode sair da ala socialista, como da fação liberal ou da social-democrata, mas a extrema-direita ganha força. Ida dos eleitores a uma segunda volta é praticamente inevitável

António José Seguro é o candidato do Partido Socialista. (Foto: campanha)

No próximo domingo, dia 18 de janeiro, Portugal vai de novo a votos, desta feita para eleger o próximo Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa, um social-democrata convicto, exerceu o cargo na última dezena de anos – dois mandatos – e o eleitorado terá de escolher o seu substituto, que sairá de um lote de cinco candidatos, apesar do leque de escolha abranger um total de 11 personalidades das mais variadas fações políticas. Luís Marques Mendes, afeto ao governo liderado pela coligação AD – Coligação PSD/CDS, António José Seguro, apoiado pelo Partido Socialista (PS), André Ventura, líder do CHEGA, partido da extrema-direita, João Cotrim Figueiredo, fundador da Iniciativa Liberal (IL), e Henrique Gouveia e Melo, ex-Comandante Naval, perfilam-se como os mais sérios aspirantes ao máximo cargo político na figura do Presidente da República, que é, por inerência, o Comandante Supremo das Forças Armadas.

Por estes dias sucedem-se as sondagens, mas só mesmo no dia 18 é que se saberá em quem os portugueses irão depositar o seu voto. Contudo, segundo as últimas auscultações, efetuadas por empresas especializadas em estudos de mercado e opinião, neste momento, a menos de uma semana das eleições, regista-se um empate técnico entre José António Seguro (20,2%), André Ventura (19,8%) e João Cotrim Figueiredo (19,1%), um sinal indicativo de que dois destes candidatos serão os mais do que prováveis eleitos para uma possível segunda volta, o que ocorrerá no dia 8 de fevereiro de 2026. Henrique Gouveia e Melo (17,5 %), que entre fevereiro e setembro de 2021 foi chamado para dirigir a Task Force para o Plano de Vacinação contra a COVID-19 em Portugal, recolhe muita simpatia entre a população, mas o seu perfil não tem, como nunca teve, uma componente política. Já Marques Mendes está demasiadamente “colado” ao atual governo, dirigido por Luís Montenegro, e dentro do seu próprio partido encontra vozes dissonantes, que se inclinam para um lado ou para o outro. São os casos de Santana Lopes, atual presidente da Câmara da Figueira da Foz e ex-primeiro-ministro do XVI Governo Constitucional de Portugal, que, sendo um social-democrata, já declarou o seu apoio António José Seguro (PS), bem como de Rui Rio, antigo presidente da Câmara Municipal do Porto ex-líder do Partido Social Democrata, que tem como seu preferido Henrique Gouveia e Melo, sendo, inclusivamente, mandatário da candidatura do antigo almirante.

Luís Marques Mendes (esquerda), um político experiente apoiado pelo partido do governo. O ex-comandante naval Gouveia e Melo goza de muita popularidade. (Fotos de campanha)

Os outros candidatos estão a fazer o seu “número”, baseados num discurso marcadamente ideológico, casos de Catarina Martins, atual deputada do Parlamento Europeu e ex-coordenadora nacional do Bloco de Esquerda, e de António Filipe, deputado da Assembleia da República em representação do Partido Comunista Português. Jorge Pinto, do LIVRE, partido fundado em 2013 e da ala mais à esquerda, de raízes socialistas, tem vindo a conquistar o seu espaço, mas a grande verdade é que, todos juntos, não conseguem votos suficientes para eleger o Presidente da República. Ao não reconhecer a legalidade em três das 14 candidaturas apresentadas, a Comissão Nacional de Eleições (CNE) aprovou 11 candidatos, a maioria deles com pouca expressão, ou praticamente nenhuma, pelo que os raros tempos de antena de que dispõem nem sequer dão para que os portugueses conheçam as suas ideias. O facto é que conseguiram as 7.500 assinaturas exigidas para que a CNE autorizasse a ida a sufrágio, mas de pouco valerá a ousadia, pois a luta será a quatro, ou até a cinco, caso Henrique Gouveia e Melo encontre um outro fôlego para, nesta última semana de campanha, convencer os muitos indecisos que ainda não fizeram uma opção em definitivo.

E se, como tudo indica, houver segunda volta? Numa primeira análise, atendendo às sondagens, por norma fiáveis, o socialista António José Seguro e o liberal António Cotrim Figueiredo, sem descartar André Ventura, da extrema-direita, são os mais sérios candidatos ao triunfo, mas a diferença de votos entre os representantes de três forças distintas não permitirá a eleição direta. Assim, é quase certo que haverá uma segunda volta, o que implicará a deslocação de votos – o chamado voto útil – para um dos candidatos. Seguro recolherá muitos dos votos da ala mais à esquerda e Figueiredo os que se “pronunciarem” favoráveis à direita, ainda que se trate de uma análise subjetiva baseada nas sondagens, resultantes das manifestações públicas da maioria dos portugueses.

Saúde, habitação e imigração

O boletim de voto tem 14 candidatos, mas só contam 11. ( Infograma CNE)

É neste cenário que a campanha vai decorrendo bem animada, obviamente com as já habituais “troca de galhardetes”, ou seja, com cada um dos candidatos a defender o que julga ser o melhor para o país, e, em simultâneo, a trocarem acusações entre eles. No essencial, todos defendem uma significativa melhoria nos vários setores e serviços da sociedade, por vias diferentes, como convém, mas repletos de boas intenções. O 25 de Abril de 1974 devolveu a Democracia aos portugueses, depois de largas dezenas de anos de fascismo sob o domínio do antigo chefe de Estado António Salazar e, após o seu falecimento, de Marcelo Caetano, mas nestes últimos 50 anos Portugal enfrentou diversas crises, com os sucessivos governos do Partido Socialista e do Partido Social Democrata a alternarem entre si. Naturalmente que o país está muito diferente, para melhor, mas ainda longe dos padrões europeus desejáveis a uma democracia saudável e justa. Basta dizer que cerca de 1,8 milhões de portugueses vivem em risco de pobreza, valores que rondam os 17% da população, um problema de enorme gravidade que os políticos tardam em resolver.

Há, todavia, três setores da sociedade que merecem um tratamento digno, a começar pela Saúde. Aliás, o Sistema Nacional de Saúde, uma importante conquista de Abril, tem vindo, ultimamente, a revelar-se num autêntico pesadelo. Como se não bastasse mais de 1,5 milhões de portugueses ainda não disporem de médico de família, os casos negligentes têm-se sucedido a um ritmo alucinante. Para lá da falta de médicos e de enfermeiros nas urgências dos hospitais, principalmente a Sul do país, o atendimento tem sofrido atrasos superiores a nove horas para doentes urgentes. O primeiro-ministro Luís Montenegro bem tenta “disfarçar” o caos com números simpáticos, mas os vários testemunhos não escondem o descalabro que vai num setor de fulcral importância na vida dos portugueses. Os partidos da oposição bem têm pedido a demissão da ministra da Saúde, Ana Paula Martins, mas Montenegro lá vai resistindo aos apelos, situação que não deverá aguentar por muito mais tempo.

Para lá dos constrangimentos nos hospitais, que incluem o encerramento das urgências de Ginecologia e Obstetrícia de várias unidades hospitalares, recentemente uma doente oncológica em fase terminal teve de aguardar a consulta deitada no chão nas urgências do Hospital de Coimbra, por não haver macas, segundo o testemunho do filho, pelo que foi notícia amplamente divulgada. Antes dessa triste ocorrência, a mulher teve de ser transportada ao hospital numa viatura particular, dada a inexistência de ambulâncias disponíveis. Os próprios Bombeiros vieram a terreiro abordar este tema dos constrangimentos para denunciarem o “caos na coordenação”, propondo a criação de uma central única de despacho de ambulâncias de socorro, ao invés do sistema atual tutelado pelo Ministério de Saúde.

Outro setor que atravessa dias dramáticos é o que se prende com a habitação. A oferta é escassa e a que existe, principalmente nas grandes cidades, dispara para preços exorbitantes. O aluguel de um apartamento tipo T2, ou mesmo um simples T1, ultrapassa os 1000 euros, quando o ordenado mínimo em Portugal foi recentemente fixado em 920 euros. Esta despesa, associada aos brutais aumentos dos bens essenciais, tem gerado uma enorme onda de insatisfação, o que levou mesmo à convocação de uma Greve Geral em dezembro de 2025, um direito consagrado na Constituição e que já não se verificava há 12 anos em conjunto com as duas centrais sindicais. Por outro lado, o número de pessoas em situação de sem-abrigo anda na ordem dos 15 mil, com as maiores concentrações a ocorrerem nas cidades de Lisboa e Porto.

André Ventura (esquerda) lidera a extrema-direita e tem uma palavra a dizer. Cotrim Figieiredo tem subido nas sondagens. (Fotos de campanha)

Um dos temas que também tem gerado muita polémica prende-se com a imigração, a grande bandeira do partido de extrema-direita CHEGA. Portugal é, por tradição, um país que sabe acolher, da mesma forma que aqueles que querem dar um rumo melhor às suas vidas não perdem a oportunidade para rumarem a outras paragens. Países como França, Suíça ou Inglaterra, na Europa, têm acolhido muitos portugueses especializados em várias áreas, nomeadamente na Saúde (médicos, enfermeiros e fisioterapeutas), bem como nas áreas da hotelaria e da construção. No entanto, com a constante turbulência vivida no planeta, Portugal é cada vez mais procurado por estrangeiros, albergando atualmente mais de 1,5 milhões de residentes vindos de diversas partes do mundo. Se a maioria vem para trabalhar, há aqueles que são mal vistos pelo partido de André Ventura. O antigo comentador de futebol afeto ao Benfica e agora líder do segundo maior partido português, tem-se insurgido contra os imigrantes que chegam do Bangladesh ou da Índia, contrapondo que não podem viver entre nós à custa da subsidiodependência. Ventura tem acolhido a simpatia de muitos portugueses por ser um político antissistema, não dando tréguas aos partidos tradicionais, que o acusam de populismo, xenofobia e racismo.

É neste cenário em constante ebulição que se vão disputar no próximo domingo as eleições para a Presidência da República. Marcelo Rebelo de Sousa foi, durante 10 anos, o presidente dos afetos. A sua popularidade esteve sempre em alta e ninguém duvida de que se pudesse concorrer a um terceiro mandato, por certo que venceria de novo. Mas não pode. Mesmo tendo sido líder do Partido Social Democrata – a principal força da coligação que atualmente governa Portugal – entre 1996 e 1999, Marcelo manteve sempre a equidistância em relação às diversas forças políticas. Foi, e ainda é, o Presidente de todos os portugueses, aliás, como se exige a uma personalidade que ocupa o cargo do máximo órgão de soberania. Resta saber quem lhe sucederá, sendo certo que qualquer um dos candidatos tidos como favoritos à vitória não deverá gozar da mesma popularidade, até porque tudo aponta para uma segunda volta eleitoral, a que Marcelo nunca se sujeitou nos seus dois mandatos.

Vaz Mendes
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

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