
São Paulo, 3 – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, na última segunda-feira, 2, novas indicações para o uso da semaglutida, princípio ativo do Wegovy (indicado para controle de peso) e do Ozempic (usado contra o diabetes do tipo 2). Com a decisão, a substância passa a ser liberada também para a redução do risco de eventos cardiovasculares e para o controle de doença renal crônica.
Segundo a agência, o Wegovy passa a ser opção para a redução de enfarte e acidente vascular cerebral (AVC) em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso. Já o Ozempic poderá ser utilizado no tratamento de pessoas com diabetes do tipo 2 associado à doença renal crônica.
As aprovações ocorrem após a fabricante dos medicamentos, a Novo Nordisk, apresentar estudos que indicaram que o uso da semaglutida, associado à terapia padrão, reduziu de forma relevante a progressão da insuficiência renal e as mortes por eventos cardiovasculares adversos graves. Os dados também mostraram que, quando combinada a uma dieta hipocalórica e ao aumento da atividade física, o composto reduziu significativamente a ocorrência desses eventos.
Para o cardiologista e diretor da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), Andrei Sposito, ainda não há uma explicação definitiva sobre o mecanismo pelo qual medicamentos como a semaglutida reduzem o risco cardiovascular.
“Temos hipóteses, como o fato de que essas medicações controlarem a obesidade, que é um fator associado a essas condições. Mas não se sabe se é apenas por isso. Também pode haver um efeito direto nos vasos sanguíneos, mas são constatações que ainda precisam de anos para serem comprovadas”, afirma.
Segundo ele, o que já está bem estabelecido é que essa classe de medicamentos – os agonistas de GLP-1 – apresenta melhora nos desfechos cardiovasculares mais graves, conforme demonstrado em estudos clínicos.
Os resultados, segundo a Anvisa, mostraram que o tratamento com semaglutida na dose de 1 mg proporcionou atraso significativo na progressão da insuficiência renal ou na morte por causas cardiovasculares, além de reduzir o risco de eventos cardiovasculares maiores e promover diminuições significativas da hemoglobina glicada e do peso corporal por até 104 semanas.
Quem pode usar o medicamento?
Segundo Sposito, agora a semaglutida pode ser prescrita nas seguintes situações:
– Wegovy: dose de até 2,4 mg para pacientes com obesidade ou sobrepeso e risco cardiovascular.
– Ozempic: dose de até 1 mg para pacientes com diabetes tipo 2, doença renal crônica e risco cardiovascular.
O médico ressalta que, para ter acesso aos medicamentos, o paciente deve apresentar risco cardiovascular, como histórico de enfarte prévio, necessidade de revascularização ou doença arterial periférica, associado a obesidade, sobrepeso ou diabetes. “Nesses casos, o uso desse tipo de medicação reduz em cerca de 15% o risco cardiovascular”, diz o médico.
Cabe destacar que pacientes com doença cardiovascular, mas sem obesidade ou diabetes, não têm indicação para o uso da semaglutida. “Não há indicação porque isso nunca foi testado. Existe apenas uma hipótese (de melhora), mas sem comprovação”, diz.
Segundo Sposito, é comum que pessoas com diabetes e obesidade também apresentem doenças cardiovasculares, o que explica o perfil dos pacientes incluídos nos estudos.
Impacto no tratamento cardiovascular
Na avaliação do especialista, o uso da semaglutida no controle do risco cardiovascular representa um avanço, especialmente no Brasil, onde as doenças cardiovasculares são responsáveis por cerca de 33% de todos os óbitos. “Mas isso não significa que esse medicamento vá resolver todos os problemas. Ainda há muitas pessoas sem diagnóstico ou tratamento adequado para hipertensão e diabetes, por exemplo”, ressalta Sposito.
De acordo com ele, a eficácia desse tipo de medicação só é observada quando os demais fatores de risco estão controlados.
O especialista também alerta para o uso de medicamentos importados sem registro. “É preciso ter cuidado, especialmente com produtos sem aprovação da Anvisa, porque nesses casos não há controle nem garantia sobre o que está sendo consumido”, conclui

