
Inacreditável, mesmo surreal, um autêntico golpe de teatro o que aconteceu no Estádio da Luz no confronto que opôs o Benfica ao Real Madrid, o último jogo da fase de liga das Liga dos Campeões. No último suspiro dos encarnados, aos 90+8 minutos, já com o Real Madrid reduzido a nove jogadores, após as expulsões do espanhol Raúl Asensio e do brasileiro Rodrygo, ambas por protestos, o guarda-redes Anatoliy Trubin foi chamado pelo técnico José Mourinho a juntar-se aos homens da frente. O médio norueguês Fredrik Aursnes apontou um livre ainda de muito longe da baliza e o ucraniano, qual avançado, apontou com uma violenta cabeçada o golo que colocou o Benfica no play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões, onde apenas poderá reencontrar o Real Madrid ou tocar-lhe em sorte os italianos do Inter de Milão. Era esse o golo que o Benfica necessitava para garantir o 24º lugar da tabela classificativa, mesmo tendo apenas contabilizado nove pontos em oito jogos. Valeu, no caso, a diferença de golos para a concorrência, tendo ultrapassado à tangente (-2 contra-3), mesmo ao cair do pano, os franceses do Marselha.
Com o Estádio da Luz a rebentar pelas costuras – mais precisamente, foram 64.305 as pessoas que assistiram ao vibrante espetáculo – que presenciaram um enorme espetáculo de futebol, o melhor que as águias proporcionaram na presente temporada. Não se podendo desvalorizar o épico triunfo das águias, este Real Madrid orientado pelo ex-futebolista Álvaro Arbeloa, que foi comandado por Mourinho quando o Special One orientou os merengues, não é, nem de perto nem de longe, a grande equipa por muitos já considerada a melhor do mundo. Sofreu quatro golos e marcou dois pelo inevitável dianteiro francês Kylian Mbappé, um resultado anormal se se pensar que os merengues atravessam uma fase pouco condizente com o seu estatuto, ainda que estejam na perseguição ao Barcelona na liga espanhola. Contudo, nesta fase da Liga dos Campeões falharam o acesso direto aos oitavos de final da competição com cinco empates, duas derrotas e um empate, uma situação nada comum para o colosso espanhol. Não é por acaso que se tem falado com uma certa insistência na possibilidade de o técnico José Mourinho regressar a Madrid por vontade do seu presidente Florentino Pérez.

Curiosamente, o Benfica consentiu o primeiro dos dois golos sofridos aos 30 minutos, com uma forte cabeçada de Mbappé a acorrer a um grande cruzamento de Raúl Asencio para o coração da área. Um golo contra a corrente do jogo, pois os encarnados dispuseram de duas belas ocasiões para se adiantarem no marcador através do defesa Tomás Aráujo, com um forte remate que levou a bola a sair junto ao poste, depois por Vangelis Pavlidis, não fosse o grego perder-se no último drible e ter-se deixado desarmar. Mas a avalancha encarnada não se ficou por aqui, pois à passagem do 20º minuto foi a vez do extremo argentino Gianluca Prestianni arrancar un potente disparo que o categorizado guardião belga Thibaut Courtois defendeu in extremis, não evitando que a bola ainda batesse na barra. Como quem não marca sofre, depois do médio ucraniano Heorhiy Sudakov enviar nova bola aos ferros da baliza de Courtois, foi o astro francês Kylian Mbappé que, de cabeça, colocou o Real Madrid em vantagem, aos 30 minutos, com uma entrada fulgurante de cabeça.
Surpreendido, o Benfica não baixou os braços e continuou numa toada atacante que o haveria de premiar. O golo do empate surgiu por intermédio de Andreas Schjelderup, aos 36 minutos, com o jovem norueguês a rematar de cabeça no coração da área, correspondendo a um cruzamento de Vangelis Pavlidis. Será que Schjelderup vai mesmo sair do Benfica? Depois de ter sido associado a uma mudança para Itália – Roma, Parma e Juventus -, ultimamente tem-se falado no ingresso no futebol belga, mais concretamente no Club Brugge. Com a recente contratação de Rafa Silva ao Besiktas – de quem se diz que a partir de agora será ele e mais 10 -, para lá do reforço do plantel com outros elementos de valor, obviamente que o Benfica está a tratar dos excedentes, mas a situação poderá dar uma grande volta, numa altura em que dentro de dois dias fica encerrado o mercado de inverno, período permitido a que as equipas reforcem os seus plantéis. Bem, o certo é que o Benfica passou para a frente do marcador já em período de descontos (40+5 minutos) na transformação de um penálti pelo grego Pavlidis, a castigar um empurrão do médio francês Aurélien Tchouaméni ao vetereno argentino Nicolás Otamenti. Melhor era impossível diante de um colosso como o Real Madrid, ainda que, como assinalado, bem distante dos seus tempos áureos.
Vira o disco e toca o mesmo… à moda do Benfica
A segunda e frenética segunda parte do encontro da Luz foi um autêntico hino ao futebol, feito de algumas jogadas geniais e com golos de belo efeito, para delírio da imensa plateia encarnada, que não se cansou de puxar pela sua equipa. E foi Schjelderup que colocou ao rubro o “santuário” vermelho quando, aos 54 minutos, operou a reviravolta no marcador. O norueguês, novamente a passe de Pavlidis, atirou a contar, depois de uma rápida incursão pelo corredor esquerdo, sem que Asencio conseguisse acertar na marcação o extremo encarnado. O merecido 3-1 fazia sonhar os benfiquistas, mas os ouvidos estavam noutros campos, especialmente na Bélgica, onde o Marselha defrontava o Club Brugge. Quatro minutos depois, Mbappé aproveitou um deslize da defesa das águias e fez e reduziu a desvantagem, deixando tudo em aberto para o muito que ainda restava da partida.

O Benfica nunca tremeu e esteve mesmo sempre por cima do jogo, para chegar ao “milagre” já em período de descontos, um golo épico apontado pelo guardião Trubin ao desferir um certeiro golpe de cabeça à baliza de Courtois, que mantém os encarnados em prova. Um só golo, o mais importante da temporada, apontado em período de descontos (90+8 minutos) pelo herói improvável. Mourinho saltou do banco, os jogadores abraçaram-se e as bancadas fizeram a festa. Inesquecível, uma situação de que não há memória nos estádios de futebol. Anatoliy Trubin aprestou-se a deixar uma mensagem nas redes sociais. “A minha estreia na Liga dos Campeões foi num jogo contra o Real Madrid. Passaram cinco anos e cá estamos – novamente o Real. Desta vez, com a camisola do Benfica. E com uma confiança diferente dentro de campo. Há momentos em que o futebol nos oferece mais do que alguma vez sonhámos. Até marcar um golo. Obrigado a todos os que apoiaram e estiveram connosco”, escreveu o guardião ucraniano.

José Mourinho (treinador do Benfica): “Ganhar ou perder jogos no último minuto ou na última jogada do jogo já me tinha acontecido diversas vezes, mas nesta situação, em que estás a ganhar, mas não chega, depois pensas que chega, mas não chega, depois tens de mudar coisas e correr riscos, porque no fim esta bola podia dar 3-3 e com 3-3 seríamos eliminados. Mas acho que ganhar ao Real Madrid tem sempre um peso importante e significativo, mas naquele momento temos de ir com tudo.
Já no jogo no Dragão, o Trubin foi na última jogada, cabeceou, a bola bateu no jogador do FC Porto, foi para canto, o árbitro não deu o pontapé de canto, mas foi lá com perigo. Nós não somos uma equipa muito forte no jogo aéreo, o grandão foi lá e fez um golo espetacular, que independentemente do nosso futuro na competição, esta vitória é histórica e sob o ponto de vista económico também é importante para o Benfica, e sob o ponto do prestígio ainda mais.”
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

