
O confronto entre dois técnicos portugueses, que já se haviam cruzado na Premier League quando ambos orientavam conjuntos ingleses, constituiu um autêntico festival de ópera em pleno San Siro. O maestro Marco Silva, que desde o início da época assumiu a batuta na condução da orquestra das águias, mostrou como se dá um recital de futebol com menos nove dos seus habituais executantes, pois entendeu poupá-los para o próximo encontro de domingo com o FC Porto no Estádio do Dragão relativo à Liga Portugal. Mesmo assim, as notas saíram bem afinadas e a águia deu música ao conjunto rossoneri do português Rúben Amorim, decididamente fora de cena, num palco que contou com a presença de perto de 70.000 espectadores.
Esta introdução musical vem mesmo a propósito, pois antes do início do encontro houve lugar à homenagem a Rui Costa, já que o atual presidente do Benfica, a quem em Itália apelidaram de maestro, continua a ser idolatrado. Nos ecrãs gigantes do estádio foram passados alguns dos melhores momentos do ex-futebolista, que brilhou com a camisola do AC Milan entre 2001 e 2206. Rui Costa desceu ao relvado para receber uma camisola 10 personalizada com o seu nome, sendo bastante aplaudido. Recorde-se que o responsável pelo emblema da águia conquistou títulos de vulto ao serviço da equipa de Milão, nomeadamente a Liga dos Campeões, depois de uma passagem marcante pela Fiorentina. Como tal, tudo perfeito, num dia em que o Benfica vulgarizou e humilhou a formação de Ruben Amorim, um técnico de sucesso quando comandou o Sporting, mas que continua a dar-se mal fora de portas, depois do fracasso ao serviço do Manchester United.
Foi ao sétimo jogo entre ambas as equipas que o Benfica arrancou o primeiro trunfo sobre tão cotado adversário, com golos do extremo belga Lukebakio, aos 16 minutos, e do atacante polaco Kaminski, aos 53 minutos. Tal como se previa, aliás em conformidade com o anunciado pelo técnico Marco Silva, os encarnados atuaram em San Siro sem nove dos seus habituais titulares, incluindo o guarda-redes, pois só o central português Tomás Araújo e o também jovem lateral luso Benjaqui foram repetentes, numa comparação com o último confronto diante do Gil Vicente para a Liga Portugal. Nomes como o grego Pavlidis, o extremo argentino Prestianni, ou o atacante português Rafa Silva – só para mencionar um trio titularíssimo – foram poupados para o importante encontro do próximo domingo com o FC Porto. Note-se que os dragões são líderes isolados do campeonato com mais dois pontos do que o Benfica, pelo que uma eventual derrota pode deixar o conjunto de Marco Silva em situação complicada.
É um facto que o AC Milan também poupou alguns dos seus jogadores mais conceituados, em menor número, pelo que este triunfo foi arrancado com muito mérito e classe. O Benfica deu uma autêntica lição aos rossoneri, que no campeonato italiano venceram por duas ocasiões e empataram outras tantas. Personalizados e indiferentes à alegada maior valia adversária, os encarnados chegaram ao primeiro golo por intermédio do extremo belga Lukebakio, que recebeu a bola na direita do ataque, para depois fletir para o centro do terreno e desferir um potente remate bem colocado de fora da área. E foi por muito pouco que, volvidos dez minutos, as águias não aumentaram a vantagem, depois do meio-campista ucraniano Sudakov ter desferido um tiraço ao poste da baliza defendida pelo guarda-redes franco-guianense Mike Maignan.
Naturalmente que o conjunto italiano esboçou uma imediata reação, como era exigível, o guardião Trubin foi chamado a intervir em duas ocasiões, a remates do zagueiro italiano Filippo Terracciano e do médio suíço Ardon Jashari, mas o ucraniano revelou-se sempre muito atento. Trubin tem estado afastado da baliza por troca com o português Samuel Soares, tendo-se falado com insistência de uma eventual mudança de ares. Insatisfeito por ter perdido a titularidade, que garantiu ao longo dos últimos três anos, o gigante contratado ao Shakhtar Donetsk, constituiu uma das chamadas novelas de verão, que até pode ter continuidade na reabertura do mercado de transferências em janeiro próximo.
Alterações de Amorim deram… em nada
Para a segunda parte do encontro o técnico Ruben Amorim bem tentou alterar o rumo dos acontecimentos com as entradas do categorizado meio-campista norte-americano Christian Pulisic, bem como do ponta belga Seelamaekers, mas o Benfica revelou-se sempre confortável nas ações defensivas e ofensivas. Não estranhou, como tal, que os encarnados tivessem aumentado a vantagem, transformada numa espécie de escândalo para italiano ver. Aos 53 minutos, após uma excelente combinação ofensiva, Jakub Kamninsski surgiu oportuno na área a desviar uma assistência do lateral internacional marroquino El Karouani.

Até ao apito final do juiz australiano Jarred Gillett, que aos 39 anos fez a sua estreia nas competições da UEFA, e como tal dirigiu pela primeira vez um confronto com equipas portuguesas, o Benfica teve uma atuação perfeita e sem qualquer percalço. Surpreendente, sem dúvida, a forma como um grupo de jogadores pouco habituados a estas lides europeias, conseguiu humilhar o todo poderoso AC Milan, ainda que desta feita só de nome, tanto mais que nove dos habituais titulares sentaram-se de início no banco. Como assinalado, os encarnados jogam neste domingo no Estádio do Dragão, onde defrontam o campeão nacional FC Porto, recebendo no dia 10 de outubro os escoceses do Celtic, partida referente à segunda ronda da Liga Europa.
Marco Silva (treinador do Benfica): “Quando entrei no estádio, quando acabámos de chegar e fomos ao relvado, senti algo de especial e diferente. Aquela receção dos adeptos para connosco e para com os jogadores, acima de tudo, foi diferente. Foi boa demais. E acho que eles retribuíram com um grande trabalho. É muito bom sentir que aqueles mais de cinco mil adeptos que estavam aqui hoje, em Milão, podem estar neste momento a festejar uma grande vitória do Benfica. Mas, novamente, são só três pontos. Começámos da melhor forma. Já vamos no sétimo jogo nesta competição. É incrível, em setembro. Mas agora começou uma nova fase para nós. São só três pontos. Começámos com o pé direito e agora há que descansar para preparar o próximo.”
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

