Um castelo de conto de fadas em plena floresta encantada do Bussaco

O Palácio do Bussaco é um edifício de rara beleza arquitetónica, mandado construir em 1888 pelo Rei D. Carlos I de Portugal. A partir de 1917 passou a funcionar como um hotel de luxo, situado numa mata plantada e protegida durante séculos pelos monges Carmelitas Descalços

O enorme edifício do Bussaco, “plantado” numa imensa floresta, é um local encantado e de muitas memórias
O enorme edifício do Bussaco, “plantado” numa imensa floresta, é um local encantado e de muitas memórias (Foto: Vaz Mendes)

A poucos quilómetros da cidade da Mealhada, no distrito de Aveiro, o Palace Hotel Bussaco situa-se no coração da mística Mata Nacional do Buçaco (Bussaco, na grafia arcaica utilizada desde o séc. XVII até à reforma ortográfica), verdadeiro ex-libris botânico plantado pelos Carmelitas Descalços no séc. XVII. O palácio, no mais esplendoroso estilo neomanuelino, foi edificado entre 1888 e 1912 para os últimos Reis de Portugal e convertido em hotel de luxo em 1917, proporcionando, há mais de cem anos, toda uma autêntica experiência palaciana a quem nele se hospeda. A imponência da sua eclética fachada neogótica, a temática da Epopeia dos Descobrimentos e a coleção de painéis de azulejos do séc. XIX conferem-lhe o estatuto de um dos mais belos, históricos e românticos hotéis do mundo.

É neste cenário deslumbrante, como num conto de fadas, que chegamos a um local onde só faltam mesmo os reis, os príncipes e os pajens. A cerca de uma centena de quilómetros da cidade do Porto, distância que dobra com partida de Lisboa, situa-se um local mágico e repleto de história. Antes da implantação da República, em 1910, após a revolta liderada pelo Partido Republicano, com o apoio da das forças do Exército e da Marinha, o Rei D. Carlos I mandou construir um palácio que servia como residência oficial de verão e pavilhão de caça da Família Real Portuguesa. D. Carlos viria a ser assassinado em 1908, com 44 anos, numa emboscada em Lisboa com um tiro no pescoço, num trágico acidente que viria a acelerar o fim da monarquia, após um período que historicamente ficou conhecido por Regicídio.

O Rei de Portugal viveu o tempo suficiente para mandar edificar uma grandiosa obra, a pedido da sua mãe, a rainha D. Maria Pia. O projeto visava a construção de um palácio real no alto da mata do Buçaco, inicialmente um retiro de luxo para rivalizar com outros edifícios do género, nomeadamente o Palácio da Pena, em Sintra, um concelho do distrito de Lisboa. Mais tarde, já com o plano definitivo devidamente elaborado, o sumptuoso edifício começou a ser construído num espaço onde existia um convento pertencente à Ordem dos Carmelitas Descalços. D. Carlos autorizou o início da edificação do palácio – após a extinção das ordens religiosas – para satisfazer as principescas exigências da monarquia portuguesa. Emídio Navarro, ilustre advogado e jornalista, então Ministro das Obras Públicas, já sob o reinado de D. Luís I, pai de D. Carlos, entregou a obra ao arquiteto italiano Luigi Manini, que projetou a construção do edifício em estilo neomanuelino.

Na atualidade, o Palácio do Bussaco é pertença do Estado Português, mas a exploração comercial é assegurada pela prestigiada empresa Alexandre de Almeida Hotels, gerida pela terceira geração de descendentes do fundador. Os preços das pernoitas são relativamente acessíveis, em nada se equiparando às grandes unidades hoteleiras existentes em Portugal de cinco estrelas. Para quem estiver a pensar em passar alguns dias tranquilos e apreciar todas as maravilhas de um dos mais bonitos hotéis do mundo, basta para tal desembolsar até um máximo de 180 euros (R$ 1.082,38) diários, podendo ainda saborear os deliciosos pratos ali confecionados para as refeições do dia, também com custos moderados. O leitão assado, característico da região, os pratos de caça (veado e faisão) e a chanfana à moda serrana e arroz de ganso são alguns dos belos menus preparados pela exigente cozinha do hotel. Os vinhos do Bussaco, brancos e tintos, muito apreciados pelo seu aroma de frutos negros, são famosos mundialmente e considerados um dos melhores da Penísula Ibérica.

Epopeia marítima dos portugueses nos mosaicos de Colaço

Tal como acontece em muitas das grandes obras arquitetónicas – exemplo da Estação Ferroviária de São Bento, no Porto, como o Portalr3 já descreveu – Jorge Colaço foi contratado para desenhar e pintar os fabulosos e gigantescos painéis de azulejos que revestem a entrada do edifício e as principais zonas comuns do hotel. É num cenário de rara beleza e repleta de história que se podem apreciar os azulejos pintados à mão que ilustram as navegações e a figura de Vasco da Gama na largada das naus comandadas pelo explorador português a partir de Belém.

Os azulejos da autoria de Jorge Colaço representam parte da história de Portugal, como a partida das naus de Belém sob o comando de Vasco da Gama
Os azulejos da autoria de Jorge Colaço representam parte da história de Portugal, como a partida das naus de Belém sob o comando de Vasco da Gama (Foto: Vaz Mendes)

Mas nem só de oceanos e descobertas se faz a história nos azulejos de Colaço. Temas como a Guerra Peninsular e a Batalha do Bussaco são parte de uma imensidão de painéis, predominantemente em tons de azul e branco, que contemplam ainda o Teatro Clássico, como os Autos de Gil Vicente, atrações literárias em forma de anjos e diabos como acontece no clássico Auto da Barca do Inferno. Perdem-se de vista as figuras da história e da ilusão, num misto de histórias verídicas e outras de recreação virtual, que nos aviva a memória e nos devolve ao passado por serem temas obrigatórios de aprendizagem durante o período de escolaridade.

Se a azulejaria do Bussaco é tema obrigatório para uma visita mais cuidada, vale a pena apreciar a vasta gama de mobiliário que recheia o interior do palácio, distribuído por três andares, inserido numa área total murada de 105 hectares. Com divisões grandiosas – a realeza não fazia a coisa por menos -, podem ser apreciadas peças que constituem um autêntico espólio museológico de grande valor histórico. A mobília, sempre muito bem cuidada, é originária de diversos países e de vários estilos, que remontam ao séc. XVII até ao início do séc. XX. Maioritariamente de fabrico português, os objetos expostos refletem o que se produzia no requintado estilo clássico D. Maria e D. José. Há ainda elementos que se misturam com o que é genuinamente luso, como a Arte Nova e a Art Déco, compostas por exemplares mais curvilíneos. Como reflexo da época dos Descobrimentos, podem ser apreciadas peças indo-portuguesas e mobiliário chinês, expostas sobre deslumbrantes tapeçarias que recriam o esplendor e atmosfera da antiga monarquia.

Mata alberga espécies de todo o mundo

Os jardins do Palace Hotel Bussaco são o ponto de partida para a descoberta de uma floresta deslumbrante
Os jardins do Palace Hotel Bussaco são o ponto de partida para a descoberta de uma floresta deslumbrante (Foto: Vaz Mendes)

A vida cá fora, outrora um espaço ideal para a caça, é nos dias de hoje preservado como se de um grande tesouro se tratasse, aliás, como efetivamente é. O ecossistema da Serra do Buçaco, classificado como Monumento Nacional, tem uma área de 105 hectares e alberga 250 espécies de árvores e arbustos de todo o mundo. A árvore mais velha é o famoso Cedro de São José, com cerca de 380 anos, vindo da América Central em 1644 e plantado pelos monges Carmelitas Descalços. De dimensões gigantescas, tem cerca de 33 metros de altura e um perímetro de tronco colossal que ultrapassa os 5,4 metros à altura do peito.

O roteiro cultural e turístico inclui toda a exploração das múltiplas sensações que a floresta nos proporciona, quer seja desde a simples admiração às habituais caminhadas por trilhos pedestres devidamente assinalados. É ainda um local propício aos banhos de floresta, pois a mata do Buçaco está certificada como terapêutica devido aos óleos libertados pelas árvores seculares para reduzir o stress. Imperdível, principalmente para os amantes da história militar, é a visita ao Museu Militar do Buçaco, situado no topo da serra, para se compreender a histórica vitória das tropas luso-britânicas lideradas pelo Duque de Wellington contra as invasões napoleónicas em 1810. O melhor será mesmo efetuar um tour ao museu recorrendo aos operadores turísticos privados, ou através de um contacto direto com a secretaria do museu, que organiza o chamado Trilho Militar.

Falando a título meramente pessoal, pois desfrutei de alguns dias no Palace Hotel Bussaco, aproveitei para descansar – não percorri nenhum trilho, pois o tempo esteve sempre muito chuvoso fruto de uma depressão oriunda do Oceano Atlântico – e usufruir do sossego que as grandes cidades não permitem. Contemplei as obras magníficas no interior do hotel, dei uns pequenos passeios nos jardins e até assisti a um casamento. Sim, há esse hábito de contrair matrimónio num ambiente de autêntico conto de fadas, na circunstância um jovem casal inglês que por uns dias habitou um castelo como de reis se tratassem. Não se tratou de uma cerimónia religiosa, mas sim civil, ainda que com toda a pompa e circunstância e até fui convidado a comer uma fatia do bolo da noiva, um doce conventual como o momento aconselhava.

O “Sr. Leitão”, esse manjar que a Mealhada nos oferece

A imponente sala onde outrora eram servidos os banquetes reais serve para as refeições diárias com menus bem requintados
A imponente sala onde outrora eram servidos os banquetes reais serve para as refeições diárias com menus bem requintados (Foto: Vaz Mendes)

Pois bem, já que estamos a falar de gastronomia, convém referir que a zona da Mealhada, onde se insere o Palace Hotel Bussaco, é rica em produtos de muita qualidade, sendo o leitão o ex-líbris da região. Preferencialmente assado em forno a lenha, o animal é um porco jovem que ainda se encontra em período de aleitamento, sendo abatido com cerca de um mês e meio de vida. Como tal, a carne é extremamente macia e suculenta. “Há Leitão à Bairrada”, pode ler-se à porta dos inúmeros restaurantes da região, uns com mais nome, outros nem tanto, mas todos eles com o selo de qualidade que se exige à boa mesa. Para quem não apreciar o “Sr. Leitão” há sempre uma alternativa, mas nada de peixe, a não ser que seja congelado. Uma boa posta de bovino grelhada, com batata frita a acompanhar cai sempre bem, preferencialmente regada com um bom espumante tão característico da região.

A região Centro de Portugal oferece uma enorme variedade de escolhas a todos os que apreciam a natureza e o que dela se pode colher. O Palácio do Bussaco, pela sua imponência, é apenas uma das referências de visita quase obrigatória, mas ali relativamente perto, a pouco mais de cem quilómetros, o local de culto dá pelo nome de Santuário de Fátima. Já aqui abordámos o tema numa viagem que um grupo de amigos fez do Porto até à cidade mais venerada pelos católicos, pois foi lá que, como reza a lenda, três pastorinhos testemunharam as aparições da Virgem Maria em 1917.

E já que estamos numa onda de “visitas”, ainda mais perto da Mealhada, está situada a cidade dos doutores, considerada o terceiro e mais importante município de Portugal, depois de Lisboa e do Porto. Coimbra foi a primeira residência real do país e é onde se encontra a Universidade de Coimbra, uma das mais antigas da Europa e Património Mundial da UNESCO. Célebre no meio estudantil pelas suas serenatas em tempo académico, repletas de romantismo, são famosos os fados de Coimbra, eternizados pela icónica guitarra tradicional portuguesa e por vozes como Zeca Afonso e Adriano Correia de Oliveira, dois músicos umbilicalmente ligados à Revolução de Abril de 1974.

2026 - Palácio o Bussaco em PortalR3

Vaz Mendes
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

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