
O embate entre benfiquistas e bracarenses correspondente à meia-final da final four de apuramento para o derradeiro encontro de sábado, a disputar em Leiria, vai ter uma final inédita e de todo inesperada. O Benfica caiu estrondosamente diante de um Braga claramente superior, deixando muito irritado o técnico José Mourinho, tendo mesmo considerado “inaceitável” a atuação da sua equipa. Como castigo, o Special One obrigou todos os jogadores a pernoitar no centro de estágios do Seixal, depois de ter arrasado a equipa por não ter conseguido o acesso à final do próximo sábado. Assim, em Leiria, o Estádio Dr. Magalhães Pessoa será o palco de um encontro inédito, pois será a primeira vez, quando se completa a 19ª edição da prova, que o título de Campeão de Inverno será atribuído a uma das duas formações minhotas. Surpreendentemente, o bicampeão nacional Sporting, ainda que fustigado por uma onda de lesões invulgar, baqueou diante do Guimarães por duas bolas a uma, acentuando-se a incerteza quanto a uma eventual crise.
Ainda com o empate a duas bolas entre o Braga e o Benfica em jogo da Liga Portugal bem vivo na memória, as duas equipas voltaram a defrontar-se, desta feita para aquela que é considerada a terceira prova, em termos de grandeza, do futebol português. A Taça da Liga não é uma competição consensual numa altura da época em que há uma grande sobrecarga de jogos para o campeonato e para as diversas competições europeias. O FC Porto tem desvalorizado sistematicamente a competição, tendo sido eliminado em pleno Estádio do Dragão pelo Guimarães por três bolas a uma. Um resultado escandaloso, é um facto, mas os dragões entraram em campo com um onze muito diferente do habitual, deixando as coisas rolar sem grandes preocupações. Tratou-se de uma opção, obviamente não tirando mérito ao adversário, mas, convenhamos, foi tudo muito facilitado. Enquanto Benfica e Sporting travaram duelos intensos – os leões viram dois dos seus jogadores lesionarem-se com gravidade – o FC Porto partiu para um mini estágio no Algarve, onde iniciou a preparação do próximo confronto para a Taça de Portugal, precisamente diante do Benfica, partida agendada para o próximo dia 14 no Estádio do Dragão. E José Mourinho não vai poder contar com o central argentino Nicolas Otamendi por ter sido expulso na partida com o Braga. Tudo somado, está bom de ver porque a Taça da Liga nunca foi do agrado dos portistas, que apenas venceram a prova por uma ocasião ao longo de 19 edições.
Uruguaio Rodrigo Zalazar dá baile

A partida até nem começou mal para as águias, pois o atacante Vangelis Pavlidis – sempre ele – teve a hipótese de abrir o marcador, logo aos 4 minutos, a cruzamento do bósnio Amar Dedic, valendo a enorme intervenção do guardião checo Lukas Hornicek. E foi tudo, praticamente, o que de relevante fez o Benfica em toda a primeira parte, dominado por um adversário onde algumas figuras brilharam a grande plano. Primeiro foi o atacante espanhol Pau Víctor, contratado ao Barcelona por 12 milhões de euros, que aos 18 minutos abriu o marcador, após um passe milimétrico do uruguaio Rodrigo Zalazar -, de nada valendo a tentativa de desarme de Otamendi, tanto mais que o argentino já tinha visto o cartão amarelo e podia incorrer numa falta grave. A verdade é que de nada lhe serviu a prudência, pois já perto do final do encontro viria a ser expulso por protestos, ficando assim impedido de atuar na próxima partida com o FC Porto para a Taça de Portugal.
Depois surgiu o grande momento da partida, com um golão de Rodrigo Salazar, impensável para muitos. O uruguaio arrancou desde o seu meio-campo e foi por ali fora, sempre pela direita, ultrapassando todos os adversários que encontrou pela frente, para atirar a contar para a baliza defendida pelo ucraniano Anatoliy Trubin. Fabuloso, um golo de um verdadeiro craque contratado há três anos aos alemães do Schalke 04 e que, aos 26 anos, tem despertado a cobiça de muitos emblemas. Mourinho ficou atónito com tantas facilidades e era bem visível a sua insatisfação no banco. O conceituado treinador começa, inclusivamente, a ser contestado pelos adeptos dos encarnados, tanto mais que o Benfica está com uma desvantagem de dez pontos para o FC Porto, comandante da Liga Portugal, e a vida na Liga dos Campeões também não está nada fácil, podendo ficar pelo caminho se não somar pontos nos próximos jogos, nada fáceis, diante dos italianos da Juventus e dos espanhóis do Real Madrid.
A segunda parte do encontro foi bem diferente da primeira, pois o Benfica passou a ser mais pressionante, fruto de algumas alterações efetuadas. Com a entrada do extremo Gianluca Prestianni o futebol das águias ganhou outra profundidade e o Braga viveu momentos complicados, ainda que, aos 51 minutos, Pau Víctor pudesse ter sentenciado o encontro, não fosse uma enorme defesa de Trubin a remate do espanhol na sequência de um cruzamento de Zalazar. À passagem da hora de jogo, o Benfica marcou de grande penalidade. Num lance muito duvidoso, o central português Paulo Oliveira derrubou Pavlidis, para o grego, na conversão do castigo máximo, enganar o guardião Hornicek. Ao minuto 81, e numa altura em que o Benfica dominava a partida, o Braga chegou ao terceiro golo. Livre batido por Ricardo Horta, do lado direito, Trubin ainda conseguiu uma primeira defesa, mas, na recarga, o defesa sueco Gustaf Lagerbielke não perdoou e fez o 1-3. Consumado o “escândalo”, com os jogadores de cabeça perdida, o registo fica para a expulsão de Otamendi ao ver o segundo cartão amarelo, excessiva se foi pelos protestos do capitão após ter sofrido uma falta, a não ser que tenha usado termos menos corretos para com a arbitragem.
Mourinho arrasa e castiga equipa
Quem não esteve com meias medidas foi José Mourinho, muito crítico para com a sua equipa. “Eu peço desculpa ao Braga, não consigo dizer que mereceu ganhar, eu tenho é de dizer que o Benfica mereceu perder, que é diferente”, começou por dizer o treinador que chegou ao Benfica esta temporada para substituir Bruno Lage, sem que se vejam melhorias.
“Fizemos uma primeira parte horrível, com exceção dos primeiros cinco minutos, onde até criámos uma ocasião para marcar. A partir do momento em que o João Pinheiro assinalou o penálti que depois reverte, porque é fora da área, acho que houve um clique inexplicável de negatividade, nervosismo, qualidade horrível em posse de bola, perdas de bola incríveis, com o Zalazar a explorar bem a profundidade no nosso lado direito e com um segundo golo inaceitável”, referiu em tom irritado, adiantando depois que os jogadores não iriam para as suas residências, pernoitando no centro de estágios do Seixal, onde irão começar a preparar a próxima partida com o FC Porto.
Já o treinador do Braga, o espanhol Carlos Vicens, ex-adjunto de Pep Guardiola no Manchester City nas últimas quatro temporadas, mostrou-se naturalmente agradado com o resultado. “Sabíamos que iríamos sentir dificuldades, que parte do êxito que poderíamos ter passava por sermos quem somos, ter personalidade, sabendo que por vezes isso pode custar algum erro na saída de bola, porque o Benfica é uma equipa que pressiona. Fomos a jogo com essa ideia e depois de uma primeira parte muito boa conseguimos uma vantagem que foi reduzida. A equipa teve de juntar-se, ser sólida e compacta. Estamos contentes e orgulhosos do esforço dos rapazes. Agora, temos de recuperar porque dentro de alguns dias temos uma final muito importante”, disse o técnico dos bracarenses.
É jornalista, natural da cidade do Porto, Portugal. Iniciou sua carreira na Gazeta dos Desportos, tendo depois passado pelo Record, Jornal de Notícias e Comércio do Porto, jornais de referência em Portugal. Participou da cobertura de múltiplos eventos nacionais e internacionais (Futebol, Basquetebol, Andebol, Ciclismo e Hóquei em Patins). Foi coordenador redatorial do FITEI (Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica). É responsável pelas redes sociais de equipes de ciclismo e dirigente desportivo em uma associação de Ciclismo. É colaborador do PortalR3, publicando textos escritos em português de Portugal.

