Preso recebe medalha de ouro na Olimpíada Brasileira de Matemática

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O colombiano Edisson Murillo, que cumpre pena em Itaí, é o primeiro detento na história do torneio a faturar o prêmio máximo na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). (Imagem: reprodução)

“A única saída é a educação. Eu já vi esse horizonte, mas não o persegui. Porém, sei que ele ainda existe e que posso alcançá-lo. Só depende de mim”. A frase é do reeducando Edisson Humberto Barbativa Murillo, 33 anos, ao descrever o sentimento de conquista após receber a medalha de ouro da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). A entrega da insígnia ao colombiano ocorreu no dia 24 de janeiro, na Penitenciária “Cabo PM Marcelo Pires da Silva” de Itaí – unidade prisional para estrangeiros. Essa é a primeira vez, na história do torneio nacional, que um preso fatura o prêmio máximo, informou a organização da competição.

Edisson participou da disputa em 2017 (13ª edição da Obmep), mas a medalha foi disponibilizada somente agora. Na época, ele cursava o Ensino Fundamental II na escola vinculadora, instalada dentro do presídio, e foi incentivado pela professora de matemática a se inscrever no torneio.

Já o resultado da 14ª Olimpíada, que ocorreu em 2018, foi divulgado recentemente e outros nove detentos que cumprem pena nos presídios subordinados pela Coordenadoria de Unidades Prisionais da Região Noroeste (CRN), também foram premiados: dois conseguiram medalhas (prata e bronze) e o restante recebeu menções honrosas.

Concorrência pesada

O colombiano medalhista enfrentou uma concorrência pesada. A primeira fase da Olimpíada reuniu 18 milhões de inscritos, sendo que 900 mil avançaram para a etapa seguinte. “Desse total, saíram somente 500 medalhas de ouro para todo o Brasil”, enumera o coordenador Regional da Obmep (Região SP01 – Presidente Prudente), José Carlos Rodrigues.

Edisson veio para o Brasil em 2007, para fugir da violência na Colômbia. “Havia muita perseguição aos jovens”, relata. Em 2014, foi preso por tráfico de drogas e, desde então, cumpre pena em Itaí.

Ele conta que sempre teve habilidade para aprender e decidiu se inscrever na Olimpíada para testar seus conhecimentos. “Aceitei o desafio e pensei: ‘Vou dar o meu melhor”. Não imaginava que chegaria tão longe. Para mim, é uma grande vitória”.

Atualmente, Edisson é monitor na biblioteca da penitenciária. Ele é responsável por cuidar de mais de 22 mil livros – o acervo contém exemplares em 37 idiomas. “A minha Internet são os livros. Vou continuar meus estudos e quando deixar a prisão pretendo investir na minha carreira profissional. Quero fazer faculdade e, quem sabe, me tornar um professor de matemática”, finaliza.

Quase dobrou

A participação de presos vem crescendo a cada edição da Olimpíada. Para se ter uma ideia, o número de inscrições referentes aos presídios vinculados à CRN quase dobrou em um ano. Somente no ano passado, foram 4.094 inscritos – aumento de 47,26% em relação a 2017, quando registrou-se 2.780 inscrições.

Realizada pelo Instituto Nacional de Matéria Pura e Aplicada (IMPA), a Obmep já é uma realidade no sistema prisional paulista desde 2012, quando passou a ser aplicada nas unidades penais da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP).

Prata e bronze

A última edição da Olimpíada também registrou presos medalhistas. Wellington Thiago Salles Carmessamo, 37, que cumpre pena na Penitenciária II de Serra Azul, faturou medalha de prata. Já Davi Ferreira de Menezes, 41, da unidade de Ribeirão Preto, conseguiu bronze. A data de entrega das medalhas ainda não foi divulgada.

Outros sete presos foram premiados com menções honrosas, colocando em destaque os presídios onde cumprem pena. São eles: Centro de Ressocialização e Penitenciária II de Avaré; Penitenciárias de Cerqueira César, Franca, Iaras, Itaí e Araraquara.

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