Carnaval

Enredo do Salgueiro homenageia orixá padroeiro e pede justiça

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Eduardo Pinto, diretor cultural do Salgueiro. (foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Orixá do fogo e da justiça, Xangô será o homenageado pelo desfile do Salgueiro, que vai pedir ao seu padroeiro que seja implacável com os mentirosos, os ladrões e os malfeitores. O enredo começa na criação do mundo por Oduduwa, avô de Xangô, e termina clamando ao juiz das religiões de matriz africana para que a justiça prevaleça no Brasil e no mundo.

O diretor cultural do Salgueiro, Eduardo Pinto, disse que são muitos os motivos para que Xangô seja o padroeiro da escola. No Morro do Salgueiro, a comunidade nasceu sobre uma pedreira, e sua bateria, apelidada de Furiosa, cresceu com o toque do Alujá (ritmo do candomblé), que agrada a Xangô.

As referências a Xangô nos desfiles do Salgueiro também passam por um personagem que faz parte da história da escola, o professor Julio Machado, que representou a entidade de matriz africana durante 39 anos nos desfiles como destaque da escola tijucana. “Independentemente do enredo, ele vinha de Xangô. A gente já falou de álcool combustível, já falou de Pantanal, e ele estava lá incluído como Xangô, sempre representando o padroeiro da escola”, afirmou

Sincretismo
O desfile será aberto com a criação do mundo na tradição iorubá. Depois conta a história do reinado de Xangô como rei de Oyó, império que ficava onde hoje está a Nigéria.

A crença em Xangô chega ao Brasil com os africanos escravizados, e o orixá ganha destaque no panteão das religiões de matriz africana. Ao ser perseguida, essa fé sobrevive por meio do sincretismo com imagens católicas. Nessa mistura, Xangô é um dos orixás que têm mais correspondências com santos, sendo relacionado a São Jerônimo, São Miguel Arcanjo, São João Batista e São Pedro.

Segundo Eduardo Pinto, as religiões de matriz africana ainda requerem espaços em que sejam quebrados os preconceitos. “Vivemos um momento muito complicado de não aceitação do que é nosso e de uma falta de respeito em relação às escolhas de cada um. Vir com um enredo afro e falando de um deus africano, você possibilita que algumas pessoas consigam entender que isso nada mais é do que cultura”, disse. Para ele, “o carnaval não é só brincadeira, é um movimento cultural”.

O Salgueiro vai desfilar com cinco carros, um tripé e 3,5 mil pessoas. A escola terá 30 alas, e, ao fim do desfile, uma delas promete mexer com o público na Avenida. “Não posso contar detalhes, mas vamos falar desses problemas que a gente está passando e pedindo justiça. Será uma identificação imediata”. A escola se apresenta no primeiro dia de desfile do Grupo Especial.

Luxo
Uma visita ao barracão da escola revela que o Salgueiro mais uma vez investiu em carros alegóricos de grandes proporções para o desfile deste ano. Mais discreta no uso de coreografias em alas e alegorias, a escola é reconhecida pelo acabamento luxuoso de seus carros.

“Não existe mais condições de fazer um carnaval com alegorias pequenas, porque a própria Avenida engole tudo isso. Para disputar o carnaval, tem que se fazer um carnaval grandioso também em tamanho”, disse o diretor cultural do Salgueiro.

Com um ensaio técnico caloroso, o Salgueiro comemora que o samba foi bem recebido pela comunidade, que é tradicionalmente uma das mais orgulhosas do carnaval carioca. Para Eduardo Pinto, esse é um dos trunfos da escola tijucana: “Acho que [o ponto forte do Salgueiro] é o componente. O salgueirense é muito orgulhoso da sua escola, se orgulha de estar vestido, de colocar uma camisa. A gente é assim, e isso se reflete no desfile”.