Falando de Trova homenageia centenário de Luiz Otávio

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LUIZ OTÁVIO - 18.07.1916 -31.01.1977. Fotos extraídas do livro "O Príncipe da Trova", pg. 157, de Carolina Ramos, ao lado de quem Luiz Otávio aqui aparece. Na segunda foto, já subjugado pela doença). (Foto: reprodução)
(LUIZ OTÁVIO – 18.07.1916 -31.01.1977) Fotos extraídas do livro “O Príncipe da Trova”, pg. 157, de Carolina Ramos, ao lado de quem Luiz Otávio aqui aparece. Na segunda foto, já subjugado pela doença). (Foto: reprodução)

A Trova, como modalidade poética, existe desde sempre. Quando digo “trova”, refiro-me à composição de quatro versos com sete sílabas poéticas cada um, com sentido completo, rimando pelo menos o segundo com o quarto, sendo que para os concursos em geral, realizados no Brasil e em Portugal, é obrigatório rimar também primeiro com terceiro verso.

De Portugal conhecemos vários autores que já na segunda fase do século 19 cultivavam a Trova com rara maestria. Por exemplo:

ANTONIO NOBRE (16.08.1867)
Nossa Senhora faz meia
com linha feita de luz;
o novelo é a lua cheia,
as meias são pra Jesus!

FERNANDO PESSOA (13.06.1888)
Nuvem alta, nuvem alta,
por que é que tão alta vais?
Se tens o amor que me falta,
desce um pouco, desce mais!

ANTONIO ALEIXO (18.02.1899)
Sei que pareço um ladrão…
mas há muitos que eu conheço
que, sem parecer que são,
são aquilo que eu pareço.

Por aqui nós tínhamos também grandes trovadores já no século 19. Um dos mais famosos talvez tenha sido o mineiro BELMIRO BRAGA, nascido em 07.01.1872, num município que hoje tem o seu nome. É dele esta composição:
As almas de muita gente
são como o rio profundo:
-a face tão transparente,
e quanto lodo no fundo!…

Ou o pernambucano BASTOS TIGRE (12.03.1882), autor da mais famosa trova sobre que se conhece, sobre saudade:
Saudade, palavra doce,
que traduz tanto amargor!
Saudade é como se fosse
espinho cheirando a flor.

Ou o próprio CATULO DA PAIXÃO CEARENSE (08.10.1863), do Maranhão, que, entre outras maravilhas, compôs:
Morto, peço-te uma esmola,
peço a ti, que és minha luz,
que, partindo esta viola
faças dela a minha cruz.

Assim como aquele que viria a ser cognominado o “Rei da Trova”: ADELMAR TAVARES, também pernambucano, nascido em 16.02.1888:
Ó linda trova perfeita,
que nos dá tanto prazer;
tão fácil, – depois de feita,
tão difícil de fazer!

Foi justamente ele que, junto com mais três trovadores também pernambucanos, lançou em Recife, em 1907, a obra “Descantes”, que eu considero a publicação mais importante que impulsionou e inspirou poetas apaixonados por trovas.

E foi justamente do encontro entre Adelmar Tavares e o dentista Gilson de Castro , mais conhecido pelo cognome literário de LUIZ OTÁVIO (18.07.1916) que começou a tomar forma e ganhar vida o que ele viria a chamar de “TROVA LITERÁRIA”, como um Movimento de âmbito nacional, complexo, extremamente bem organizado. A princípio, depois de muito estudar a respeito, Luiz resolveu lançar uma coletânea, em 1956, intitulada “Meus Irmãos, os Trovadores”, reunindo 2.000 trovas de mais de 600 autores. Posteriormente, já em 1959, tendo premiado em um concurso organizado em Salvador/BA, juntamente com o célebre poeta J.G. de Araújo Jorge, Luiz Otávio lá esteve, onde conheceu e filiou-se ao G.B.T.= Grêmio Brasileiro de Trovadores, presidido por Rodolfo Cavalcante. Já no ano seguinte a dupla Luiz/JG planejou e organizou os I Jogos Florais de Nova Friburgo, que até hoje vem sendo realizado ininterruptamente todos os anos.

Sua vivência dentro do GBT durou cinco anos. Houve várias divergências mas o que mais provocava conflito acredito que tenha sido o fato do Grêmio ser uma entidade constituída por poetas/trovadores, violeiros, repentistas em geral, cordelistas. Luiz Otávio então fundou, em 1966, a UBT= União Brasileira de Trovadores, voltada exclusivamente para o que convencionou chamar de “Trova Literária”. A partir daí, mediante um trabalho hercúleo, expandiu a UBT por todos os recantos do País e viajou para todos os Estados, inaugurando unidades e transformando, com seu carisma e sua simpatia, a Trova na modalidade poética mais apaixonante que se podia imaginar, atraindo (mesmo em tempos de “não informática) milhares de seguidores e compartilhadores da ideia.

Sua participação no Plano Material, infelizmente, foi interrompida quando, acometido de um mal raro e fatal, deixou-nos quando contava com apenas sessenta anos. Sem imaginar que, quase quarenta depois, o Movimento que ele criou continuaria forte e próspero, com novos e inúmeros adeptos, todos juntos, comemorando o que seria o seu centenário de nascimento. Poetas de todos os quadrantes que continuariam abraçando suas ideias e seus ideais e conjugando com o Mestre os mesmo versos que ele um dia compôs, com rara inspiração e sabedoria:

A Trova tomou-me inteiro,
tão amada e repetida,
que agora traça o roteiro
das horas da minha vida!…

Onde quer que agora esteja, parabéns, Luiz Otávio, por seus cem anos, comemorados por todos nós, seus humildes e fiéis seguidores, enquanto vida tivermos e enquanto o brilho de seu trabalho iluminar nossos caminhos. Afinal, não foi você mesmo quem prenunciou isto em uma de suas trovas?

Levaste tanto de mim,
deixaste tanto de ti,
que chego a pensar enfim
que estou lá… e estás aqui…
LUIZ OTÁVIO