“Como surgiu Lobato”, por Francisco Piorino Filho

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Monteiro Lobato. (Foto: Wikipédia)
Monteiro Lobato. (Foto: Wikipédia)

Ao final desta crônica, extraída do livro ‘VULTOS DE PINDAMONHANGABA”, de autoria do saudoso Professor João Martins de Almeida, um dos mais expressivos literatos e poetas da “Princesa do Norte”, edição de 1957, Editora Tupy – Rio de Janeiro, deixaremos pequeno comentário a respeito.. Mas, vamos à crônica, inserida às páginas 13 e 14 da 1ª série :

“ Era excelente alma a do Dr. Benjamin Pinheiro(1). Amigo de todos, gostava, como cidadão importante do seu tempo, de fazer política, nada mais. Quem lhe causava um pouco de aborrecimentos era o mano Tonico (2). Mas como estimava esse irmão! Talvez por ele ter herdado o nome e a bondade do velho…

– Tonico a pé? E o carro que lhe comprei o mês passado?
– Vendi, Benjamin. Você compreende, automóvel precisa de gasolina…

– Assim não é possível! Você vende todos os veículos que lhe compro! A sua mania de caridade está nos saindo cara. Você não se contenta em dar receita gratuita. Manda aviar o remédio também por sua conta, aliás, por nossa conta… Precisamos pensar nas manas Adelaide e Elvira!…

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O Dr. Benjamin tinha um grande amigo em São Paulo, o José Bento. Escrevia bem o moço, e essa propensão para escrever, descobriu-a por acaso o Dr. Benjamin.

– José Bento, escreva-me um artigo desancando o político “A”. Tenho um jornalzinho recém fundado, em Pindamonhangaba…

– Gostei, José Bento, do seu último comentário. Que articulista terrível você está se revelando! Sim senhor! Um planfetário de respeito! E os seus sueltos (3). Tem sido apreciados, sabe? Duvido que haja entre os nossos colegas um com sua capacidade de escrever. Aquele seu conto está muito bom. E o artigo de fundo, algo contundente! Acabou com a farofa do vereador Y.

E assim o jovem ia se revelando pelo estímulo do amigo pindense.

Mal sabia o Dr. Benjamin Pinheiro que estava dando asas a futuro escritor, e que seu modesto jornal –” O MINARETE” – seria famoso por receber os primeiros trabalhos daquele que seria gigante da pena, orgulho de todo o Brasil: JOSÉ BENTO MONTEIRO LOBATO!

Veja bem o leitor que naquela época, em 1957, o Professor João Martins de Almeida já se dedicava em acompanhar a vida, as obras e toda a história de Monteiro Lobato que faleceu na capital de São Paulo, em 4 de julho de 1948, vítima de um colapso.

(1) – Bom é destacar que coube ao Dr. Benjamin Pinheiro, esse “verdadeiro descobridor” de Monteiro Lobato, quando Prefeito, sancionou a lei que autorizou a construção da Estrada de |Ferro Campos do Jordão por Emílio Ribas e Victor Godinho; coube a ele também, a iluminação elétrica e Pindamonhangaba e bem como o embelezamento do nosso Jardim da Cascata. O Dr. Benjamin foi Prefeito no período de 1905/1908. Naquela época, o Presidente da Câmara era também o Prefeito, fato que vigorou até 1948, quando assumiu a Prefeitura, então eleito, o Professor Manoel César Ribeiro.

Como se vê, MONTEIRO LOBATO nascido em Taubaté e reivindicado como tido nascido no município que detém o seu nome, teve na realidade o seu “surgimento oficial” como grande literato do mundo infantil, em Pindamonhangaba, nas mãos do Dr. Benjamin.

(2) – O irmão do Dr. Benjamin, o “Tonico” de que trata o autor da crônica, outro não era senão o Dr. Antonio Pinheiro Júnior, cognominado por “Dr. dos Pobres”, tal seus gestos caritativos.

(3) – Sueltos, são versos.

Deliberamos transcrever esta crônica não apenas para contar um fato realmente importante na vida de Monteiro Lobato, nascido da vivacidade de um jornalista pindamonhangabense, como para por em evidência um grande poeta de Pindamonhangaba, PROFESSOR JOÃO MARTINS DE ALMEIDA, hoje, como tantos outros ilustres conterrâneos, esquecido, o que se lamenta e como!

Francisco Piorino Filho, seu ex-aluno.