Projeto Memória homenageia ativista do movimento negro Lélia Gonzalez




O Projeto Memória inclui 20 réplicas da exposição Lélia Gonzalez, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

O Projeto Memória inclui 20 réplicas da exposição Lélia Gonzalez, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

A historiadora, antropóloga e filósofa, Lélia Gonzalez, foi homenageada na terça-feira (24) com o lançamento de mais uma edição do Projeto Memória da Fundação Banco do Brasil. Lélia foi uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU). Como ativista, foi uma das pioneiras do feminismo negro no Brasil e trabalhou para a análise dos preconceitos contra mulheres negras e as desvantagens delas na sociedade. A cerimônia ocorreu no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no centro do Rio de Janeiro.

O Projeto Memória inclui 20 réplicas da exposição Lélia Gonzalez que ocupará o salão de entrada do CCBB. As réplicas serão entregues pela Rede de Desenvolvimento Humano (Redeh) a organizações do movimento negro, universidades e bibliotecas, que poderão promover exposições em todo o país. As instituições receberão 4 mil kits biblioteca com um livro foto biográfico e DVD do documentário sobre a ativista. Haverá ainda 4 mil kits pedagógicos, com dois almanaques históricos, que estarão disponíveis para as escolas. O material também pode baixado (download) no portal do Projeto Memória.

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A coordenadora do Rede de Desenvolvimento Humano, Schuma Schumaher, fala sobre a importância de LéliaTomaz Silva/Agência Brasil
“Lélia começa a falar sobre a questão racial e a chamar atenção do racismo existente e do sexismo já nos anos 60. É uma mulher à frente do nosso tempo, uma ativista negra, uma acadêmica. Uma mulher que viajou o mundo para divulgar o Brasil, a luta da população negra. Então, é mais do que justo que Lélia, possa ser homenageada e fazer com que as escolas e as crianças possam conhecer e se espelhar no pensamento de Lélia. Saber que tiveram pessoas negras e uma mulher como ela que foi capaz de dar a volta por cima, de enfrentar os preconceitos, o racismo e provocar uma revolução”, analisou a coordenadora do projeto e coordenadora executiva da Redeh, Schuma Schumaher.

Para o economista Rubens Rufino, filho de Lélia, a possibilidade do legado deixado pela mãe chegar às crianças é um dos pontos mais positivos do trabalho. “Acho que ela vai mostrar para as crianças que é possível [vencer]. É difícil mas é possível, principalmente, para nós negros”, destacou.

O economista disse que houve avanços contra o racismo no Brasil desde o início da luta da mãe até os dias atuais, mas ainda existe uma longa estrada a ser percorrida. “Nós vivemos em uma sociedade em que há desigualdade, distribuição de renda muito ruim, até a conjuntura econômica do país faz com que se reforce o racismo que a gente ainda tem”, analisou.

Rufino lembrou que as primeiras reuniões do Movimento Negro Unificado ocorreram na casa da família, no bairro do Cosme Velho, na zona sul do Rio, e ele costumava datilografar os manifestos. Com isso, aprendia cada vez mais sobre as questões defendidas pela mãe. Rufino também pôde datilografar os textos de Lélia. “Eu me sinto um privilegiado, não só pela convivência, mas de ter tido a oportunidade de bater e ver esses textos. Ter a oportunidade de entender melhor o que ela queria dizer e gravar na minha memória, aplicando com certeza para a minha vida, para a vida da minha filha e do meu filho. E saber que o legado que ela deixou não foi para uma geração. Foi para um povo. Ela abriu mão da vida pessoal dela para lutar por um povo”, completou emocionado.

A ex-ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), Luiza Bairros, que foi amiga de Lélia, disse que o contato com ela na militância do movimento negro e com as mulheres em geral sempre foi não só de companheirismo, mas também de ensinamento. “De buscar aprender que as dinâmicas do racismo no Brasil têm a ver com vários processos, que é preciso estudar para compreender como o racismo se manifesta no Brasil, de como na medida em que a gente tem acessos a diferentes espaços na sociedade passa a aprender que é preciso não permanecer no gueto que o racismo tenta nos relegar, mas que é preciso enfrentar todas as situações sem medo de denunciar, de pensar alternativas para esta sociedade.”

A nova edição do Projeto Memória foi produzida em parceria da Fundação Banco do Brasil com a Redeh e a empresa de capitalização Brasilcap. Na avaliação do presidente da fundação, José Caetano de Andrade Minchillo, a escolha de Lélia para esta edição é uma contribuição para a reflexão sobre o momento da mulher, principalmente da mulher negra na questão da igualdade racial, de gêneros e de oportunidades. “A Lélia Gonzalez foi um ícone nesse sentido. Ela foi uma ativista, uma historiadora, uma escritora, mas, fundamentalmente, uma pessoa de muita coragem, que enfrentou, em um momento muito diferente deste nosso atual, de forma muito enfática, aquilo que ela acreditava”, ressaltou.

Lélia Gonzalez é a segunda mulher em destaque no Projeto Memória, criado em 1977, para preservar a memória cultural brasileira. Desde lá, foram homenageados Castro Alves, Monteiro Lobato, Rui Barbosa, Juscelino Kubitschek, Oswaldo Cruz, Josué de Castro, Paulo Freire, Nísia Floresta, João Cândido (líder da Revolta da Chibata), Marechal Rondon e Carlos Drummond de Andrade.