General Júlio Marcondes Salgado, o grande herói de 1932

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General Júlio Salgado. (Foto: reprodução)
General Júlio Salgado. (Foto: reprodução)

Nasceu em Pindamonhangaba , no bairro do “Matto Dentro” a 1º de setembro de 1890, sendo seus pais o Cap. Victuriano Clementino Salgado e Dona Anna Eufrasina Marcondes do Amaral ( O seu nascimento tem o nº 53, folha 42, livro A-3 do Cartório de Registro Civil de Pindamonhangaba). Foram seus avós paternos : Francisco José Clementino e Anna Francisca Rodrigues Salgado e, maternos : Luiz Gonzaga Marcondes e Maria Justina Marcondes.

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Em 1907, no dia 26 de junho, alistou-se nas fileiras da Força Pública ( hoje Polícia Militar) do Estado de São Paulo, com destino ao 1º Esquadrão do 1º Regimento de Cavalaria; matricula-se no Pelotão de alunos cabos, sendo promovido ao posto de anspeçada a 15 de agosto e a cabo de esquadra a 1º de junho de 1909.

Em 1911 é promovido a 2º sargento e, no ano seguinte, no mês de maio, contrai matrimônio com Dona Ofélia Acritelli, filha de ilustre família residente em Santa Branca_SP.

A força de vontade de Julio Marcondes Salgado era uma de suas grandes qualidades morais, assim é que em dezembro de 1913 logra aprovação para o Curso Especial Militar, o qual conclui em março de 1915, sendo então promovido a Alferes.

Em 1920, como 1º Tenente, é instrutor de tiro no CEM, desincumbindo-se com brilhantismo nessa missão.

Durante a revolta de Mato Grosso, em 1922, está o Tenente Marcondes Salgado a postos, pronto para defender o Estado e a República, sendo elogiado porque “participou com os contingentes da Força Pública que seguiram para as fronteiras daquele Estado, a fim de garantir a autoridade constituída e defender a República”.

Nesse mesmo ano foi-lhe conferido, por S.M. o Rei Alberto, da Bélgica, o diploma da Cruz de Cavaleiro da Ordem de Leopoldo II e respectiva condecoração.
Por merecimento, em 1924, galga o posto de Capitão, ocasião em que começa a se salientar entre seus camaradas, demonstrando a todos, comandados e superiores, suas excelentes qualidades de soldado e de Chefe, como legalista convicto, na Revolta de julho, de Izidoro Dias Lopes e Miguel Costa.

Toma parte no assalto à Estação do Norte e à Usina da Light da Rua Paula Souza, em poder dos insurretos. Em 1925, na perseguição à Coluna Miguel Costa, comandando uma Companhia do 3º B. I. , vence o combate de Iacanga, capturando quase todos os inimigos, recebendo pelo feito a Medalha da Legalidade e a promoção, por merecimento e bravura, a Major.

Grande esportista e perito na prática do hipismo, conquista o primeiro lugar no Campeonato Paulista, saltando com o cavalo “Boemio” de 1 metro e 85 centímetros de altura.
Em 31 de maio de 1927 é promovido a Tenente Coronel, passando então a comandar o Regimento de Cavalaria, Unidade onde havia assentado praça e na qual havia já se destacado como cavaleiro de escol, colhendo vitórias expressivas, não só para a Força Pública, como também para o próprio Estado de São Paulo.

Em 1929, sobre o Concurso Hípico Brasileiro, realizado no Rio de Janeiro, o “Correio Paulistano”, de 4 de dezembro, relata o seguinte:
“ A atuação dos nossos cavalarianos merece especial atenção, pois com uma pequena representação de apenas cinco oficiais, conquistou galhardamente cinco vitórias, sendo uma delas de maior vulto, em sua expressão hípica. Foi essa prova a de Energia, denominada ‘Presidente da República’ , levantada magistralmente pelo comandante Marcondes Salgado, um dos mais simpáticos e entusiastas cavaleiros que honram o hipismo bandeirante, montando o estupendo cavalo Trust”.
A 23 de maio de 1932 é nomeado comandante interino da Força Pública, sendo dois dias depois promovido a Coronel e mantido no Comando Geral, atingindo, assim, aos 41 anos de idade o posto máximo da luminosa carreira.

Julio Marcondes Salgado, predestinadamente, estava designado para ser um dos guias dos ideais do povo paulista, na campanha patriótica de reconduzir a Nação ao regime Constitucional . Era a Revolução de 1932 – A Revolução Constitucionalista !

Naqueles momentos difíceis da vida de soldado e de líder, soube concentrar a confiança popular em sua pessoa, e à frente da Milícia, no dia 9 de julho, lança-se, juntamente com o povo paulista, no Movimento Constitucionalista, destinado a dar normas legais ao País.

Mas a fatalidade o alcançou a 23 daquele mês e, num gesto inopinado, roubou a vida daquele notável chefe, vítima da explosão de uma granada bombarda. Jorrou o seu generoso sangue e, com este, a vida de um bravo, tombado em cumprimento do dever.

Vejamos agora como narra esse lamentável episódio, que redundou na morte de Julio Marcondes Salgado, o grande escritor e historiador Hélio Silva , em sua obra – “1932 – A GUERRA PAULISTA:

“Para corrigir a deficiência da artilharia paulista e porque não chegavam as peças e os soldados dessa arma, esperados de Mato Grosso, o engenheiro Jorge de Resende e o major da Fôrça Pública, José Marcelino da Fonseca, trabalharam na feitura de uma arma de guerra, espécie de morteiro ou bombarda.

Seria a arma ideal de trincheira, fácil de transportar e de simples manejo, quando produzisse os resultados que dela se esperava. O trabalho tenaz e paciente de muitos dias parecia levar a um resultado animador. As diferentes peças desenhadas e fundidas foram montadas, ao mesmo tempo que se preparava a munição para as experiências. Os primeiros ensaios foram satisfatórios. Foi marcado o dia 23 de julho, em Indianópolis, para uma demonstração ao comando geral do exército constitucionalista, ao comando geral da Fôrça Pública e as pessoas gradas.

No local reuniram-se o Coronel Julio Marcondes Salgado, comandante da Fôrça Pública, o tenente-coronel Salvador Moya e o então capitão José Maximinio da Fonseca, os capitães Lúcio Rosales e Heliodoro Tenório da Rocha Marques, e o tenente Valfrido de Carvalho, todos da Fôrça Pública, o médico Vlademir Piza , Moacir Barbosa e outros.

O general Bertoldo Klinger, acompanhado de seu ajudante –de- ordens, tenente João Saraiva, chegou quando já tinham sido feitos três disparos considerados satisfatórios. Talvez por isso, ao prepararem a peça para nova demonstração, os assistentes descuidaram-se de tôda e qualquer proteção, acercando-se, confiadamente, em semicírculo.

O material era improvisado, foi mal calculada a espolêta da granada e a explosão se deu dentro da própria peça, arrebentando-a e atirando os estilhaços longe. Um fragmento apanhou, de raspão, o coronel Julio Marcondes Salgado, seccionando-lhe a carótida, derrubando-o, esvaindo-se em sangue, morrendo ali mesmo. Outro estilhaço atingiu o peito do capitão José Marcelino da Fonseca, traspassando-o em ferimento grave a que não sobreviveria”. Nesse mesmo acidente, sofreram ferimentos leves o General Bertoldo Klinger, o Tenente Coronel Salvador Moya, o Capitão Heliodoro Tenório da Rocha Marques, além de um Sargento e dois civis”.

PROMOÇÃO A GENERAL

General Julio Marcondes Salgado. (Foto: reprodução)
General Julio Marcondes Salgado. (Foto: reprodução)

Julio Marcondes Salgado recebeu inúmeras homenagens póstumas, cabendo aqui destacar a que lhe foi devida “post-mortem”, pelo governo de São Paulo.

Eis na íntegra o ato governamental que deu a patente de general ao Coronel Julio Marcondes Salgado :

“O Governo de Pedro de Toledo, reconhecendo o supremo sacrifício decreta:
– Considerando que o Coronel Julio Marcondes Cesar Salgado, comandante Geral da Fôrça Pública do Estado de São Paulo, no decorrer da sua vida militar, através de todos os postos e de todas as Armas, sempre se revelou um militar exímio, sereno cumpridor de seus deveres, o que lhe valeu a estima de seus comandados e de todo o povo paulista;

Considerando que, neste momento histórico da vida paulista, representou papel de singular relevância pelo que bem mereceu as considerações e honras com que foi distinguido, prêmio de um trabalho realizador e fecundo, no qual revelou a têmpera do velho caráter bandeirante;
– Considerando que encontrou a morte, no dia de hoje, quando cuidava de dar às Forças do Exército Constitucionalista, novos meios de eficiência e de garantia da vitória da nobre causa por São Paulo abraçada;

– Resolve, nos termos do Decreto nº 5602, de 23 de julho de 1932, considerar promovido ao posto de General Comandante da Fôrça Pública do Estado de São Paulo, o Coronel Julio Marcondes Salgado”.

UMA PEQUENA SÍNTESE DO EXPLODIR DA REVOLUCÃO DE 1932 E A PARTICIPAÇÃO DO BRAVO PINDAMONHANGABENSE 

Desde os fins do ano de 1930, quando se instalou em São Paulo um governo estranho à sua gente, desconhecedor de seus problemas, alheio à sua técnica administrativa, certo mau estar se assenhorou dos paulistas, sempre ciosos do seu esforço e do seu progresso. Um anseio que se tornou em brado de todas as horas se manifestou na exigência de um interventor “civil e paulista” em substituição ao “militar não paulista”.

De tal forma a opinião pública se demonstrou forte nessa exigência que o militar foi substituído, assumindo o governo um magistrado, paulista e civil. Seu governo durou dias apenas. Elementos militares forçaram a sua saída. Outro militar foi nomeado par a interventoria. Novos brados, nova grita incessantemente repetida, exigia um interventor “civil e paulista”. Já então se conspirava francamente no sentido de obter pela força a reconstitucionalização do país e a reentrega dos Estados a si próprios. As eleições para a Assembléia Constituinte, apesar de marcadas para maio de 1933, só se realizariam se o governo ditatorial se visse constrangido a não adiá-las.

Julio Marcondes Salgado, então tenete-coronel da Força Pública, compreendia e sentia sinceramente o bater do coração paulista. Era, assim, um dos conspiradores para a Revolução em preparo. Quando Pedro de Toledo foi nomeado interventor de São Paulo, como “civil e paulista”reclamado pelo povo, Marcondes Salgado foi promovido a coronel e recebeu a missão de comandar a veterana e nobre Força Pública do Estado. Desde então, o valente militar não descansou e tudo fez por aquilo que ficaria marcado na história de São Paulo e do Brasil com a mais bela página de heroísmo e valor coletivos. Tomou parte nas combinações preliminares, encarregou-se de convencer os oficiais, explicando-lhes com profunda sinceridade e coragem moral a verdadeira significação do movimento. Deu balanço nas armas e munições disponíveis da Milícia. Fez, enfim, quanto lhe era possível para que a explosão do movimento tivesse todas as garantias possíveis para a vitória.

Os Poderes Públicos de sua terra natal o homenagearam, perpetuando seu nome até esta data, apenas com a denominação de uma via pública, a rua que tem início na Praça Barão do Rio Branco ( Largo São José) até o seu final, já no bairro de Sant’Ana
Na Capital, existe a denominação de um viaduto com o seu nome e, no Estado, temos um município denominado por GENERAL SALGADO, em homenagem ao destemido pindamonhangabense.

A Revolução Constitucionalista de 1932 que praticamente teve início com a morte de quatro jovens pauluistas: Mário Martins de Almeida, Euclides Miragaia, Drásio Marcondes de Souza e Antonio Camargo de Andrade, originando a sigla MMDC, conforme a lei estadual :11.658/2004, teve acrescido o nome de mais um herói: Alvarenga, passando portanto, a MMDCA.

Fazem parte da biografia do General Julio Marcondes Salgado, nestas “Gotas Históricas”, algumas fotos da época da Revolução que tyrouxe a São Paulo e ao Brasil, a Democracia e com ela, a criação da USP. a opção pela industrialização, o aprendizado da mobilização popular e até a emancipação feminina, tudo graças ao heroísmo dos combatentes pauliustas em seus 87 dias de combate, onde foram mortos 634 combatentes. Tudo isso, sim, gerando posteriormente o feriado de 9 de JULHO, o dia em que São Paulo pegou em armas para defender a volta da Constituição Federal e o Estado Democrático de Direito.

Bibliografia :
Pindamonhangaba – Athayde Marcondes – Ed. 1922 – Typografia Paulista
1932 – A Guerra Paulista – Hélio Silva – 1967 – Ed. Civilização Brasileira
Polícia Militar – ( Asas e Glórias de São Paulo)- Opúsculo –José Canavo Filho e Edilberto de Oliveira Melo-
BIOGRAFIAS- Francisco Piorino Filho – Mystic Editora -2001